Engraçadinha Depois dos Trinta

Dentro da Mostra Centenário de Nelson Rodrigues, o Canal Brasil exibe à 0h15 de segunda para terça Engraçadinha Depois dos Trinta, uma das boas adaptações de Nelson para as telas na década de 1960. A seguir, o texto que serviu de base para a apresentação do filme por Leona Cavalli.

Fernando Torres e Irma Álvarez

No segundo semestre de 1959, os leitores do jornal Última Hora se deliciaram e se escandalizaram diariamente com as aventuras dos personagens de Asfalto Selvagem. O folhetim de Nelson Rodrigues tinha sexo, violência e adultérios saindo pelo ladrão. Quando foi editado em forma de romance, um volume só não bastou: foram dois. Ambos foram levados para o cinema pelo diretor J. B. Tanko.

O primeiro, em 1964, tinha o título de Asfalto Selvagem e contava a história de Engraçadinha dos 12 aos 18 anos. Estreou com sucesso mas logo foi proibido a pedido de esposas de oficiais do Exército. O segundo, Engraçadinha Depois dos Trinta, foi para as telas em 1966 e chega nesta segunda-feira à mostra do Canal Brasil. Na terça, passa a primeira parte da história, em versão filmada no ano de 1981.

O fato de ser uma continuação explica por que o Doutor Odorico Quintela (Fernando Torres) conhece tantos detalhes da vida de Engraçadinha (Irma Álvarez). Uma coincidência tipicamente folhetinesca vai juntar as duas partes do romance.

Odorico marcou a estreia cinematográfica do ator Fernando Torres, já então um veterano do teatro. O personagem é uma crítica de Nelson Rodrigues à figura do pistolão, aquele homem supostamente influente, cheio de relações com gente importante, mas que no fundo é somente um garganta. Odorico começa paquerando a ninfeta Silene, mas está interessado mesmo é na mãe dela, a virtuosa Engraçadinha.

Em torno deles se arma uma rede de relações perigosas. Tanto Odorico quanto Engraçadinha são infelizes no casamento. Silene é cantada por Leleco (Claudio Cavalcanti), rapaz envolvido com jovens transviados. Durval, o filho mais velho de Engraçadinha, se consome num ciúme edipiano da mãe. Há mesmo uma sugestão de atração homossexual disfarçada de violência, o que leva a história para as páginas policiais.

O amor é sempre motivo ou consequência de uma humilhação. Saber manipular os outros, e até enganar-se a si mesmo, não é suficiente para garantir a felicidade para ninguém. Nelson Rodrigues botava o circo dos afetos para pegar fogo.

Engraçadinha Depois dos Trinta pode ser visto também como uma espécie de crônica do Rio de Janeiro dos anos 1960, na visão do grande moralista Nelson Rodrigues. As cenas de abertura, com o calçadão de Copacabana e o trem chegando a Vaz Lobo, fazem a cartografia das classes sociais. A Barra da Tijuca, ainda bastante inexplorada, era o território da evasão e do pecado. O Centro da cidade, com suas lojas e redações de jornal, era onde se dava o comércio de desejos.

Do futebol à popularização das calcinhas de nylon, o Rio moderno é devassado de cabo a rabo. Até o cinema entra no jogo de referências da época. O filme-escândalo que todos comentam, “Os Amorosos”, é uma paródia de Os Amantes, de Louis Malle, que causou celeuma por causa de uma cena que sugeria sexo oral. Numa passagem de Engraçadinha Depois dos Trinta, Odorico vai ao cinema e projeta-se na tela exatamente naquela cena. Com isso, J. B. Tanko antecipava filmes como “A Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen.

O próprio Nelson Rodrigues escreveu os diálogos desta adaptação, incluindo uma grande novidade do seu folhetim, que eram os pensamentos dos personagens soando em voz alta. No filme, ouvimos a voz interior de Odorico revelando suas imposturas.

Nelson também deixou de fora do roteiro as muitas citações de colegas jornalistas, algumas bem ultrajantes mesmo na base da brincadeira. Mas deixou uma frase do seu alvo principal, Otto Lara Rezende. Para variar, era mais uma definição ambivalente do Brasil, espécie que Nelson cultivava com carinho de jardineiro: “O Brasil é o analfabetismo genial”.

No papel de Engraçadinha, está Irma Álvarez, uma das musas do cinema brasileiro de então. Nascida na Argentina, Irma foi vedete de Carlos Machado e uma das “Certinhas do Lalau”, concurso de beleza promovido pelo escritor Stanislau Ponte Preta na década de 50. Foi uma atriz dada a ousadias, como protagonizar a primeira fotonovela brasileira, desfilar de biquíni no Copacabana Palace e raspar completamente a cabeça para filmar com Ruy Guerra o inacabado Cavalo de Oxumaré. Irma faleceu em 2007, aos 73 anos. A voz de Engraçadinha, no entanto, não é dela, mas de Glauce Rocha, que a dublou.

Um comentário sobre “Engraçadinha Depois dos Trinta

  1. Em 1962, Irma também foi protagonisa de Porto das Caixas, o primeiro longa
    de Paulo Cesar Saraceni, um de seus melhores papéis..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s