Capovilla, Egoyan, Pennebaker

813232_3Maurice Capovilla é o grande homenageado da Mostra do Filme Livre, que começa hoje (terça) no CCBB-Rio e se estende por São Paulo, Belo Horizonte e Brasília. Haverá retrospectiva de filmes e palestras de Capô nas quatro cidades. Somente no Rio ele dará um curso de três aulas sobre momentos históricos do cinema brasileiro que ele viveu e testemunhou. Pronto para lançar seu longa mais recente, o mix de romance e musical Nervos de Aço, Capô merece todo tributo como cineasta desbravador, professor abnegado e dono de um pensamento crítico afiado sobre os rumos do nosso cinema. Como um pequeno tijolinho a mais nessa homenagem, coloco aqui o link para baixar o livro que fizemos juntos para a Coleção Aplauso, Maurice Capovilla – A Imagem Crítica. A cortesia é da Imprensa Oficial do Estado de SP, editora da coleção. Veja também o site da mostra.


Verdades enterradas e pessoas desaparecidas são matéria-prima frequente em filmes de Atom Egoyan. No seu mais recente, THE CAPTIVE, ele combina o thriller psicológico e o policial na história de uma menina sequestrada por uma gangue de pedófilos e localizada oito anos mais tarde, ainda no cativeiro. A narrativa se passa em três tempos, com caminhos que se abrem e custam a se definir para o espectador. Passa a impressão de coisa hiper-fabricada, artificiosa até não mais poder. A trama mirabolante e extremamente superficial envolve câmeras secretas num hotel de Niagara Falls, uma espécie de reality show pervertido, policiais e detetives incapazes de cumprir com seus requisitos básicos e um pai sob suspeita de quase todo mundo, menos do espectador. Fica difícil acreditar em qualquer desses elementos, a começar pelo vilão caricato que é identificado já na primeira cena e parece concentrar em si tudo o que há de sinistro no mundo ocidental. Ao exagerar nas pausas e na solenidade dramática, Egoyan põe em risco até o seu talento na construção de climas inquietantes. Ainda assim, eu me vi sustentando o interesse até o fim, ainda que fosse somente para ver se alguma coisa viria redimir o fiasco. Mas foi só decepção. THE CAPTIVE justifica as vaias e o massacre que recebeu em Cannes, no que o diretor considerou seu “pior pesadelo”.


Os filmes de rock de D. A. Pennebaker, que vi semana passada na mostra da Caixa Cultural, são ótimos para examinar como as plateias se comportam diante dos diferentes tipos de roqueiros e de acordo com cada ocasião. O pessoal do cinema direto tinha essa gana de filmar o público como parte do espetáculo. Havia ali uma busca da beleza dos gestos e das expressões, mas era também uma maneira de decupar o “drama” que se desenrolava entre músicos e fãs. Três exemplos de “dramas” diferentes: Em KEEP ON ROCKIN’, registro de um super show com roqueiros tradicionais em 1969, em Toronto, o público, em sua imensa maioria composto de jovens, está ali apenas se divertindo e reverenciando mestres como Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, sem maior aproximação entre palco e plateia. A exceção é o espalhafatoso Little Richard, que estimula uma relação mais tátil com o público, tirando peças de roupa e jogando para a multidão ou chamando garotas para dançar no palco. Já em ZIGGY STARDUST AND THE SPIDERS FROM MARS (1973), um andrógino David Bowie excita a plateia. As pessoas esticam os braços como se quisessem tocá-lo, especialmente nos momentos em que ele ou o guitarrista Mick Ronson se aproximam da borda do palco. As expressões de êxtase e choro são de fundo sexual. Reach out and touch (fotos acima). Em WOODSTOCK DIARY, por sua vez, as pessoas parecem estar excitadas entre elas, quando não absortas em suas viagens particulares. O clima de Woodstock era mais de introspecção. Os jovens estavam vivendo uma experiência de vida, não de consumo artístico. Por isso parecem estar consigo mesmos ao som da música, em lugar de querer juntar-se aos músicos por algum caminho fetichista. As plateias não são sempre iguais. As de hoje estão mais preocupadas em checar se estão aparecendo no telão.

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