Quo Vadis, Cuba?

O relaxamento das restrições políticas em Cuba e sua reaproximação com os EUA são, naturalmente, um tema em pauta no cinema cubano. Até aí, é bastante natural. O que chama atenção é o interesse de realizadores estrangeiros pela dramaturgia que emana desse momento histórico. Além de projetos internacionais como 7 Dias em Havana, Laurent Cantet foi buscar num livro de Leonardo Padura o material do seu recente Retorno a Ítaca. Agora é a vez de conhecermos o filme de três brasileiros sobre esse tema. Através está estreando hoje (domingo) no Festival de Cinema Latino-americano de São Paulo.

André Michiles, Diogo Martins e Fábio Bardella fizeram um filme absolutamente aventureiro. Michiles cita as influências do Iracema de Bodanzky e Senna, e de Em Busca da Vida, de Jia Zhang-ke. Depois que ele e Fábio estiveram em Cuba rodando cenas para o documentário Tudo por Amor ao Cinema, de Aurélio Michiles (pai de André), a mosca desse novo projeto os mordeu. Negociaram longamente a autorização do governo para filmar na ilha e obtiveram a licença restrita aos limites de Havana. Não obedeceram. Meio clandestinamente, partiram para um road movie que corta o país de leste a oeste, estendendo um fiapo de narrativa ficcional num percurso basicamente documental. Durante os 45 dias de filmagem, gastaram somente 40 mil reais, além do apoio local do ICAIC – Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica. A primeira coisa que se ouve no filme é o anúncio de que, a partir de janeiro de 2013, os cubanos poderiam viajar livremente para o exterior, dependendo apenas da concessão de visto pelo país visitante.

A mudança foi considerável. Deixou para trás o tempo dos balseros clandestinos rumo a Miami, hoje vistos pelos cubanos como “loucos”. Cíntia, a protagonista de Através, não sabe se aceita o chamado do namorado para ir viver com ele em Nova Jersey. Quando o filme começa, ela está arrumando uma bolsa para viajar, mas não para fora, e sim para dentro do país. Cíntia quer fazer um balanço de sua consciência e conhecer melhor sua terra antes de tomar uma decisão. O filme pega a estrada com ela, ora de trem ou de ônibus, ora de carona – e não passa disso o esqueleto dramático prestabelecido. A carnadura é composta dos encontros da moça, quase todos no limite entre o casual e o encenado, e da maneira como a Cuba contemporânea se desdobra com naturalidade diante de nossos olhos.

O preço desse desprendimento é que o filme às vezes de descuida muito do fio narrativo em prol das digressões veristas. Algumas cenas demonstram não terem rendido tanto quanto se esperava. Mas logo em seguida a construção se reapruma, graças principalmente ao ritmo de deslocamento constante e à atuação encantadoramente espontânea de Cíntia Rodriguez Paredes.

Partindo de Havana, a viagem nos leva a cidades cubanas que raramente aparecem no cinema, como Cienfuegos, Camaguey e Bayamo. Através de um olhar livre e solto, conhecemos paisagens e detalhes que escapam à seleção habitual das câmeras. Em cada lugar Cintia vivencia experiências e discussões que dão a temperatura da vida contemporânea no país: o povo se virando com seus pequenos negócios e a modéstia de recursos, as carências de mobilidade interurbana, a presença comum de gadgets e grifes estrangeiras, a noção de comunismo como algo superado… Mas também o espírito de luta e de crítica que sempre animou os cubanos depois de 1959.

Três grandes e ótimas sequências se destacam nessa radiografia dos sentimentos cubanos em voga. Numa delas, Cíntia visita seus avós reais em Cienfuegos e testemunha o fervor do velho de 99 anos, orgulhoso de suas medalhas e honras de veterano revolucionário. Em outra, ela tem uma aguda conversa com um estudante sobre a permanência e a dissolução dos velhos ideais, e a possível herança da revolução na Cuba de hoje. A terceira sequência, abertamente ficcional, mostra o envolvimento de Cíntia com um conquistador em Camaguey (Geovanys Vistoste, também excelente), que culmina numa dura denúncia da psicopatia que pode florescer nos desvãos de uma sociedade em transição.

A viagem de Cíntia, se por um lado a leva mais perto da decisão de partir, por outro a coloca em contato com as camadas mais profundas do seu próprio país. O bonito e um tanto misterioso desfecho do filme, no coração da Sierra Maestra, nos deixa no centro do dilema da moça: romper com sua história ou nela penetrar ainda mais? Cíntia é um selfie de Cuba, uma personagem em busca de um destino.

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