Clã, Oração e um tatuador

Pablo Trapero é um ótimo cineasta que não teme assuntos fortes nem os trata com mãos de seda. Seus filmes são frequentemente brilhantes e incômodos. O preço disso é o perfume de sensacionalismo que volta e meia se insinua. O festejadíssimo O CLÃ, por exemplo, adota a forma do thriller para contar os sequestros privados que um agente de inteligência da ditadura argentina praticava nos últimos anos do período militar. Na busca de um estado de tensão permanente, Trapero exagera no uso de velhas canções americanas como contraponto irônico das ações de sequestro e na espalhafatosa sequência da prisão final, fartamente anunciada desde o início. Um momento particularmente apelativo é a montagem paralela de um prisioneiro sendo torturado e um casal transando sofregamente no banco de um automóvel. Como espectador, senti-me agarrado pelo colarinho e sacudido para “sentir” a conexão entre sexo e violência.

Fui por demais exigido também na suspensão da descrença para aceitar algumas implausibilidades de uma história um tanto mal contada: como explicar a relativa alienação daquela família em relação ao cárcere de sequestrados e aos gritos das torturas que vinham do porão da casa? Como o filho mais velho pretendia se safar no caso do sequestro do amigo ocorrido durante uma carona com ele? Por que os sequestradores se expunham tanto ao acompanhar de perto a entrega do dinheiro dos resgates? Tampouco me ficou muito claro o jogo de interesses e cumplicidade entre Puccio e os militares para quem ele trabalhava no passado.

Enfim, posso estar sendo impertinente com essas cobranças de um filme tão bem sucedido em muitos aspectos (atuações, produção de época, uma cena impressionante de tentativa de suicídio). O fato é que, por esses senões, O CLÃ não me parece merecedor de tanta celebração.


oracao-do-amor-selvagemRaro longa catarinense a romper a bolha regional e entrar em cartaz no Rio (nos Cines Joia), ORAÇÃO DO AMOR SELVAGEM é livremente inspirado numa trágica história real. Conta a obstinação de um camponês viúvo (Chico Diaz) em proteger a filha e resistir aos chamados do fundamentalismo religioso. O caso fica especialmente grave quando ele se apaixona pela irmã de um pastor, que nutre por ela uma atração incestuosa (os dois são vividos por Ivo Müller e pela atriz e cantora curitibana Camila Hubner). O painel que se revela é de comunidades dominadas pela lógica do puritanismo e da intolerância. Apreciei no filme, principalmente, os caprichos fotográficos, a trilha de Zeca Baleiro e os toques de ambientação caipira sulina. Não me compatibilizei muito com os solavancos do roteiro – sobretudo na primeira parte, quando as coisas ficam bastante obscuras para o espectador –, nem com a caracterização de Chico Diaz, que, independente da competência do ator, oscila além do plausível entre o homem bronco e doente, o justiceiro desenvolto e o namorado firmemente determinado. Além disso, há um excesso de gente esquisita para um filme só e, em consequência, uma sobrecarga de elementos que não ficam resolvidos a contento depois do desfecho implacável.


jun matsuiAndre Ferezini disponibilizou online o seu curta JUN MATSUI, um perfil sintético e magnetizante do tatuador e artesão brasileiro Jun Matsui. O filme o “visita” em três etapas ao longo de quatro anos, assim pontuando algumas mudanças na sua aparência e estilo de vida. Um personagem bonito e elegante, talvez um pouco narcisista, que se expressa nas peles alheias com formas vistosas e sinuosas, às vezes cobrindo o corpo inteiro. Ferezini faz jus à estética apurada de Matsui mediante um trabalho fotográfico bastante sofisticado, um ritmo hipnotizante e um desenho musical inspirado. Um belo curta, que já teve exibições em Tóquio, Nova York, Londres e São Paulo. Clique para assistir.

2 comentários sobre “Clã, Oração e um tatuador

  1. Sua cotação recomenda O CLÃ, mas o texto crítico é quase exclusivamente um rol de falhas e insuficiências. Pablo Trapero tem apreciadores ilustres, mas quando vejo esse nome nos cartazes mudo de calçada.

    • De fato, Ely, pode soar incongruente, mas é que, no caso de filmes muito badalados como esse, costumo sublinhar as insuficiências como forma de chamar atenção para os excessos de estima. Mas isso não quer dizer que o filme seja necessariamente ruim. “O Clã”, por exemplo, tem qualidades que o credenciam a ser visto como um bom exercício de gênero. Mas nada além disso. Gosto bem mais de “Abutres”, mas ainda menos dos outros filmes do Trapero.

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