Mulheres de Herzog e Davies

Dois grandes diretores tropeçam ao retratar mulheres do início do século XX. Werner Herzog, em Queen of the Desert. Terence Davies em Sunset Song. Ambos inéditos comercialmente no Brasil. 

Em QUEEN OF THE DESERT, temos uma protagonista obsessivamente empenhada em viajar aos cantos mais inóspitos e arriscados do Oriente Médio. E temos uma sucessão de animais exóticos em cena, como dromedários, abutres, falcões e bebês leões. Contudo, termina aí qualquer identificação desse filme com a obra autoral de Werner Herzog. A biografia da antropóloga, escritora e exploradora inglesa Gertrude Bell (1868-1926), uma Lawrence da Arábia de vestido longo, foi filmada nos moldes dos épicos hollywoodianos, mas na verdade com muito pouco de épico.

Não sei até que ponto uma certa misoginia terá levado Herzog a privilegiar os aspectos românticos de um retrato de mulher condenada à solidão pela perda sucessiva de seus interesses amorosos. Poemas do persa Hafiz se mesclam a trechos do diário de Gertrude para conferir um tom literário bastante convencional ao eixo narrativo. Como resultado, a missão etnográfica e política de Gertrude, entre populações beduínas e líderes de governos no crepúsculo do Império Otomano, fica envolta numa nuvem vaga, sem desenvolvimento e apresentação minimamente substanciais. Mal explicada também fica a origem de seus recursos e de sua aparentemente invencível força de presença. Herzog falha na composição psicológica da personagem e também na sugestão de alguma transcendência, o que costuma caracterizar seus melhores personagens. Até as locações no Marrocos e na Jordânia parecem filmadas com um olhar turístico, posado, sem o grão de loucura característico do diretor.

O que resta, então, é um espetáculo moderadamente vistoso, composto por cavalgadas na paisagem, cisnes no lago, grua se erguendo sobre o beijo dos amantes e steadcams flutuando pelo interior de palácios orientais. Nicole Kidman, substituindo Naomi Watts, e James Franco, cobrindo a desistência de Jude Law, formam um casal bem pouco convincente no terço inicial do filme. A fotografia tem dificuldade em dissimular os retoques faciais e de busto em Nicole quando ela vive as idades mais tenras de Gertrude. Dificuldade maior ainda teve Herzog para nos transmitir a sensibilidade daquela mulher.



Num de seus melhores filmes, “O Fim de um Longo Dia”, Terence Davies fazia um paralelo entre os fiéis de uma igreja e a plateia de um cinema. A cena, inesquecível, reunia os dois cultos e evidenciava o lirismo do diretor. Em SUNSET SONG, seu penúltimo filme, Davies cria outra bela cena de igreja, mas sem qualquer sentido poético ou transcendente. É somente uma missa, mesmo. Tomo isso como exemplo do que falta a esse novo trabalho, no qual o diretor se limita a um finíssimo exercício de academicismo.

SUNSET SONG narra o amadurecimento de uma jovem na Escócia do início do século XX. Chris Guthrie (a ex-modelo Agyness Deyn) tem que criar seu espaço junto a um pai tirânico (Peter Mullan), uma mãe suicida, um irmão querido de quem se separa e, finalmente, um marido transtornado pela 1ª Guerra (Kevin Guthrie). A ideia do romance de Lewis Grassic Gibbon (1901–1935) é mostrar a identificação daquela mulher com a terra, que permanece sempre a mesma enquanto os homens se transformam. O filme, porém, fica a meio caminho dessa intenção. Mesmo recorrendo aqui e ali à narração original do livro, Davies não logra penetrar na subjetividade de Chris, ficando na superfície das expressões de espanto ou nas lágrimas de amargura. Há personagens que surgem do nada ou desaparecem sem deixar rastro. O roteiro se prolonga demais e falha redondamente na caracterização do marido embrutecido quando de seu retorno da guerra.

Em compensação, encontramos uma aula de gramática acadêmica, com fusões para marcar a passagem do tempo, desvios de câmera para concluir sequências, tomadas bucólicas em milharais sem fim e ovelhas que passam justamente quando os namorados se encontram na estrada. Não faltam também as canções melancólicas que os personagens de Davies costumam entoar em cena. Mas, também nisso, a profunda ressonância humana da música, presente em seus primeiros filmes, deu lugar à simples ilustração de sentimentos vagos. Terence Davies era melhor quando não queria se parecer com Terrence Malick.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s