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O cardápio de ontem na mostra competitiva do VII CachoeiraDoc ofereceu, em relação aos dias anteriores, um equilíbrio melhor entre importância política e criatividade na linguagem. Assisti a três sessões. A primeira foi dominada por questões da cidade e de regiões do Nordeste.

Espaços em transformação

No curta recifense Nunca é Noite no Mapa, o diretor Ernesto Carvalho aponta o mapeamento do Google Street View como uma ferramenta de esvaziamento de territórios. Os bairros populares são invadidos pela gentrificação e por projetos urbanísticos descaracterizadores, ao mesmo tempo em que a cobertura do Google transforma as ruas em meras referências. A recusa ao mapa, para Carvalho, é metáfora de um incômodo maior quanto ao destino repressivo e padronizador da cidade. Sentimento semelhante anima Fort Acquario, do cearense Pedro Diógenes. Ele se apropria do áudio de um depoimento do arquiteto responsável pela construção de um aquário supermoderno na Praia de Iracema, em Fortaleza, para desconstrui-lo pela ironia. Imagens de populares usufruindo do lazer na praia e um clipe de peixes ao som da versão Xuxa de “Aquarius” dinamitam a retórica do empreendimento que promete “devolver a Praia de Iracema às famílias”. Esse tema seria abordado ainda pelo curta Entretempos, de Yuri Firmeza e Fred Benevides, exibido em outra sessão do dia. Entretempos esbanja entropia ao agenciar cantos afros, fotos de demolição e construção no Rio antigo e animações de empreendimentos imobiliários para denunciar a transformação dos bairros populares negros em paraísos para a classe média branca.

Um grupo de moradores da cidadezinha de Sertânia (PE) concordou em colaborar com a diretora Fabiana Moraes no documentário encenado Dia de Pagamento (foto acima). Eles falam dos ganhos e perdas com os trabalhos de transposição do Rio São Francisco, no qual se empenharam. A seminal influência de Ilha das Flores é evidente na construção do filme, mas Fabiana a transcende ao expor com simpatia e graça o processo de construção que costuma estar por trás de muitos docs. Narração e reações dos sertanejos se articulam para quebrar a retórica expositiva. O último plano de uma vala de lixo lança uma sombra de questionamento sobre os elogios ao consumo espalhados pelos depoimentos.

A sessão foi completada pelo longa Aracati, de Julia de Simone e Aline Portugal. Uma área do sertão cearense surge modificada por grandes intervenções da engenharia e da tecnologia. Gigantescos moinhos eólicos fatiam a paisagem, uma cidade foi inundada para dar lugar a um açude no Vale do Jaguaribe. Um pouco na linha do cinema de Jia Zhang-ke, as diretoras documentam esse cenário sem pressa e com um refinado senso de construção estética. Seguem a pista do vento aracati, do litoral para o interior do estado, colhendo o testemunho e as fabulações de alguns poucos e fortes personagens. Em Aracati, estamos mais próximos da contemplação que de uma visão crítico-sociológica do progresso. Há tanto o cavaleiro quase medieval em seu isolamento e o camponês que sabe observar o vento quanto o sertanejo performático que chega a construir uma teoria instintiva do documentário diante da câmera. A memória de um passado não tão distante já vai sendo empurrada pelo vento para o esquecimento, e o filme tenta capturar vestígios dessa passagem.

A sessão radical

A sessão provavelmente mais radical de todo o festival reuniu o curta Entretempos, comentado acima, o média #Sem Título 2 – La Mer Larme, de Carlos Adriano, e o longa Filme de Aborto, de Lincoln Péricles.

#Sem Título 2 – La Mer Larme dá curso à depuração do luto (mar de lágrimas?) de Carlos Adriano pela perda de seu companheiro e parceiro, Bernardo Vorobow. O média de 31 minutos compila trechos de poemas (Mallarmé incluído) e velhos fragmentos de filmes (de 1891 a 1900) ao som de inúmeras versões da canção francesa La Mer, de Charles Trenet. As imagens recorrentes de dois homens conversando num convés e três outros navegando num pequeno barco insinuam uma homoafetividade distante, subjacente ou mesmo romântica. Por fim, flashes de Bernardo e Adriano, assim como radiografias de um cateterismo de Bernardo, concluem o filme-poema como numa assinatura. Referências pessoais à parte, é mais um opus na já longa paixão do artista pelo cinema dos primórdios. Lá está o famoso plano de Cunha Sales (1897) retrabalhado por Adriano em Remanescências, junto a filmes de Étienne-Jules Marey, dos irmãos Lumière, de Thomas Edison, etc. Essas curtas tomadas sofrem aqui uma pletora de intervenções (negativo, inversões, sobreposições, loopings, apagamentos bruscos), enquanto a música é também randomicamente fragmentada, resultando numa total ausência de qualquer padrão audiovisual identificável. O resultado, mais afeito à exibição em espaços de arte que em cinemas convencionais, causou certo espanto, alguns risos e algumas deserções – mas também muitos aplausos – na plateia de Cachoeira.

O longa Filme de Aborto recorre ao instrumental brechtiano, e por extensão godardiano, para falar de angústias de jovens infelizes da periferia de São Paulo. Temos aqui um casal massacrado pelo trabalho opressivo e assolado pela dúvida sobre ter ou não um filho. Quem está grávido é o homem, o que supostamente facilita a opção pela interrupção, já que o aborto só seria crime se praticado pela mulher. Essa hipótese de inversão irônica – com uma curiosa cena de homens conversando na sala de espera de uma “clínica” – acompanha outras inversões e desarticulações operadas pelo filme: imagens tomadas através de espelhos, ausência de sincronia entre falas e imagens, indefinição entre raiz documental e elaboração ficcional. A reiterada banalidade do cotidiano contrasta com a inserção de canções de Kurt Weil e uma sequência de Chaplin. Lembro-me do debate na Mostra de Tiradentes, quando Lincoln Péricles assegurou a intenção de fazer um filme “didático” de militância contra a sujeição de trabalhadores e mulheres. Não vejo, porém, como esse objetivo pode ser atingido à base de tanta pseudo-invenção canhestra, já que o próprio poder de comunicação do cinema entra no rol dos itens sabotados.

Formas de retratar

A terceira sessão se compôs de perfis de personagens marcantes, cada um utilizando uma forma diferente de aproximação documental. Todos dirigidos por mulheres. Orquestra Invisível Let’s Dance, de Alice Riff, retrata Osvaldo Pereira, o primeiro DJ do Brasil. Eram os anos 1950 e 60, época dos LPs de orquestras e big bands. Seu Osvaldo animava bailes blacks em São Paulo com seu “aparelho valvulado”, precursor das carrapetas e dos computadores. O filme é tímido em arrancar o lado mais interessante dessa história e desperdiça tempo precioso num baile pouco ilustrativo. A narração por um sobrinho resulta desencarnada. Resta o carisma simples do personagem.

Também negra, filha de escrava alforriada, Antonieta de Barros (1901-1952) galgou às posições de educadora da elite, cronista de jornal (como “Maria da Ilha”) e primeira mulher negra a tornar-se parlamentar no Brasil – tudo isso na elitizada e branca Florianópolis da primeira metade do século XX. Antonieta, de Flávia Person, narra sua história com base em materiais de arquivo e narração intimista, mas convencional. Passa a impressão de um dever bem cumprido, nos limites de uma pesquisa bem contextualizada.

Abigail, por sua vez, ronda sua personagem através de uma filmagem do gênero mistério. Abigail Lopes (1924-2011) foi indianista, esposa do sertanista Francisco Meireles. As diretoras Isabel Penoni e Valentina Homem vão buscá-la perto do fim da vida, em sua casa repleta de vibrações do candomblé. O filme, produção carioca, invoca as memórias da mulher (“me arrependi de ter pacificado os índios para eles viverem o que não presta”) e flagra sua devoção aos Orixás. Um projeto interessante que – assim como Terra Deu, Terra Come – se deixa imantar pelos eflúvios vindos da pessoa documentada e do seu entorno.

Por fim, Retrato de Carmem D. (foto acima), de Isabel Joffily, é um legítimo Grey Gardens brasileiro. A famosa psicanalista Carmem Dametto, aos 72 anos, cura-se de uma depressão e de uma acusação criminal da qual já foi inocentada. O filme instala na casa dela um mecanismo de observação intrigante e arriscado, sem escamotear os aspectos mais provocantes da personagem. A relação difícil com a filha ocupa boa parte do tempo do curta e abre uma avenida de considerações sobre psicanálise familiar e, ao mesmo tempo, sobre os limites éticos na exposição de um caso como esse. Extremamente imersivo e bastante perturbador.

Concluo aqui minha cobertura do VII CachoeiraDoc. Estou partindo hoje para Ilhéus como simples turista. Um turista documental, por assim dizer.