Um filme que não sabe onde largou o copo

Não é só por mostrar festas, uma atrás da outra, que BR 716 pode ser considerado um filme-festa. É assim principalmente por exprimir um tipo de percepção típico da festa. Aquela sensação de estar meio bêbado e cercado de um monte de gente, ouvindo pedaços de conversa que nem sempre fazem sentido, olhando para todos os lados sem norte definido. Aquela história de papo furado que às vezes emperra na chatice, mas logo vem uma tirada genial, um beijo inesperado, e a felicidade inunda tudo. Aquele negócio de gente entrando e saindo de tal forma que a gente começa a perder a noção do tempo. Ainda estamos na mesma festa ou esta já é outra? Como é que eu fui dizer ou fazer isso se eu – creio – não costumo dizer nem fazer isso?

BR 716 é um filme que não sabe onde largou o copo.

Depois de brincar com a velhice em “Juventude”, Domingos Oliveira remonta aos seus jovens inícios, em 1963, quando escrevia o roteiro de “A Culpa” (que só seria filmado em 1971) e desabava de amores por todas as mulheres do mundo. Tempo de paixões instantâneas e simultâneas, porres curados com outros porres. Tempo em que as festas eram dadas nos apartamentos, e não em casas de festas, e os bares penduravam a conta até ela cair de podre.

Felipe Valverde, alterego de Domingos, vive seus últimos dias de dolce far niente à beira do golpe civil-militar. As cenas em que os amigos festeiros acordam aos acordes da Internacional, para pouco depois dormirem enquanto Felipe lê para eles o seu roteiro, sintetizam a ironia com que o diretor revê e fantasia o seu passado.

O filme-festa está cheio de referências à clef, como o cronista José Carlos Oliveira (Pedro Cardoso) e uma possível Leila Diniz (Sophie Charlotte). Sobram também alusões ao cinema dos anos 1960, como La Dolce Vita e Oito e Meio, de Fellini, e Sombras, de John Cassavetes, ou mesmo a Memórias, de Woody Allen, outra grande admiração de Domingos. As quebras da encenação, quando os atores falam para a câmera ou ficam a meio caminho entre uma coisa e outra, somam à conta do descompromisso, mas também da imensa autoconsciência do cineasta. Caio Blat fala como ele e fica no centro de tudo, como ele gosta de ficar. A nóia, em Domingos, é a forma de expressão de uma vaidade. E a festa, um bom pretexto para desprezar a gramática e filmar do jeito que quiser.

2 comentários sobre “Um filme que não sabe onde largou o copo

  1. Que texto gostoso de ler, Carlinhos! Você verbaliza muito bem bem certas situações que, todos nós, artistas ou não, famosos ou não vivemos (em momentos como uma festa. Afinal, o que é uma festa?…), e coisas que sentimos, mas não conseguimos explicar, Fala de impressões de quando se tem uma relação forte com o seu trabalho (claro, que ao fazer o que se gosta!) e fala de como o diretor encena a história que está contando. Você junta tudo isso ao analisar este filme do D. Oliveira. Juventude e velhice encarnados nessa figura do Cinema Novo… mas não tem melancolia, não… Desperta uma vontade enorme de ver o filme! Escrevi isso aqui meio sem pensar… Li teu texto, bateu um impressão boa e… tá aqui…

    • Puxa, Newmar, você disse tudo o que eu mais gostaria de ouvir a respeito desse texto. Por essas e outras é que a gente se anima a continuar nessa troca de pura paixão. Abraço grande.

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