É Tudo Verdade: Dawson City – Tempo Congelado

Uma incrível história de incêndios, ouro e filmes é o que nos conta Bill Morrison em Dawson City: Tempo Congelado. Morrison é um especialista em arqueologia cinematográfica. Seus filmes rodam no circuito de arte e de cinema com igual desenvoltura. Em geral, lidam com raras imagens antigas reunidas em torno de um tema ou raciocínio e alinhadas com música de autores contemporâneos.

Dawson City foi criado a partir de um achado histórico de fins dos anos 1970: as escavações no local onde havia um rinque de patinação, na remota cidade canadense de Dawson, localizaram um rico acervo de mais de 1000 latas de filmes dos anos 1910 e 1920, em sua maioria dados como perdidos. O solo congelado garantiu uma relativa preservação do material, que foi então restaurado pelos Arquivos Nacionais canadenses.

Morrison combina trechos desses filmes, de variada procedência, para contar a história de Dawson em fins do século XIX e início do século XX, época em que a corrida do ouro coincidia com a invenção do cinematógrafo e o nascimento da indústria do cinema. Dawson era então capital do garimpo de ouro e ponto final de uma linha de distribuição de filmes. De tão longe que era, os distribuidores não se animavam a custear o retorno das latas, que eram então depositadas num banco e depois na biblioteca local. Com a chegada dos filmes falados, os mudos perderam interesse e foram jogados no rio do ouro, queimados em fogueiras ou simplesmente destruídos. Os que depois seriam encontrados se salvaram porque estavam em caixotes usados na impermeabilização de uma piscina e rinque de patinação.

As películas de nitrato, usadas no início do cinema, eram altamente inflamáveis, assim como toda a arquitetura de Dawson, que por várias vezes foi consumida em chamas. A ação do fogo, portanto, é um dos elementos que Morrison utiliza para tecer os fios de toda essa história: a cidade, seus empreendedores (o avô de Donald Trump deu início à fortuna da família construindo ali um bordel, que na Wikipedia é referido como “restaurante”), lutas trabalhistas e o trânsito entre ouro e cinema. Alguns magnatas de Hollywood, como Sid Grauman, saíram do garimpo do rio Klondike.

Outro link é o dos achados, de ouro e de filmes. Morrison arregimenta não só o acervo de Dawson, mas muitos excertos de outros filmes e atualidades, além de fotografias. Um dos poucos filmes conservados da pioneira diretora Alice Guy-Blaché estava naquele tesouro congelado. Um lote importante de imagens de Eric Hegg,o fotógrafo icônico da Corrida do Ouro no Canadá, foi encontrado numa cabana da região, décadas depois.

O filme não economiza textos na tela para contextualizar personagens e fatos da crônica econômica, artística e até criminal de Dawson City. De resto, é a música hipnótica de Alex Somers que nos embala através dessa jornada. Morrison edita materiais diversos para forjar continuidades e restituir um senso de narrativa ao que ficou disperso no tempo e no espaço. A degradação das películas ganha efeito dramático e estético, num procedimento fetichizante de quem lida com a found footage.

Para além da beleza de como usa os arquivos, Dawson City é um exemplo brilhante de como desvelar múltiplas camadas históricas com graça, poesia e alto teor de revelação.

Veja o trailer:

2 comentários sobre “É Tudo Verdade: Dawson City – Tempo Congelado

  1. Olá Carlos Alberto,
    Gostei bastante do filme. Interessante também o mix e a costura que Morrison faz ao intercalar o que conseguiu ser salvo de imagens em movimento com fotografias e outros acervos. Nada é gratuito. Assisti 7 filmes internacionais, a seleção estava ótima este ano.
    Sds.

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