O Real e o Romântico

Sobre REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA e MUITO ROMÂNTICO

– “Fernando Henrique, você tem que pensar em alguma coisa”. A frase dita por Itamar Franco (Bemvindo Sequeira) a certa altura de REAL – O PLANO POR TRÁS DA HISTÓRIA, dá uma ideia do nível de banalização a que o filme submete esse episódio da história econômica brasileira. A criação do Plano Real, segundo o filme, foi uma maratona de discussões inflamadas entre homens firmemente dispostos a “salvar o Brasil”. Itamar aparece estranhamente enérgico, enquanto FHC, Malan e outros próceres do tucanato quase desaparecem em benefício do protagonista, Gustavo Franco.

O filme é conceitualmente desastroso ao tentar aplicar a fórmula de thrillers financeiros americanos (como “Wall Street” e “A Grande Aposta”) ao contexto brasiliense. Alguns lances chegam a parecer satíricos, como a caminhada em câmera lenta dos “homens de preto” ou o discurso de Franco em defesa do Plano numa manifestação de adversários. Essas liberdades de representação descolam o filme de um maior compromisso com os fatos, acomodando-se melhor na faixa da recriação ficcional.

Cabe reconhecer que REAL permite também uma leitura mais ambígua dos acontecimentos. Se reafirma a importância do Plano, não escamoteia os seus efeitos adversos, nem a quebra da economia brasileira no segundo mandato de FHC. Vários diálogos evidenciam como o povo era um joguete na boca dos tucanos. Gustavo Franco ocupa o centro dramatúrgico como um herói problemático, pequeno monstro neoliberal que não hesita em sacrificar amores, amigos e até o seu amado mercado em prol de ambições pessoais. Em dado momento, ele até sugere um paralelo com Napoleão.

Tecnicamente, o diretor Rodrigo Bittencourt (também autor de grande parte da trilha roqueira) se segura no ritmo, na manutenção de movimento constante e em algumas boas performances. Emilio Orciollo Netto como Franco, Juliano Cazarré como um senador petista genérico e Arthur Koll com voz idêntica à de José Serra têm atuações particularmente sugestivas. Em compensação, Cassia Kis como a repórter de TV que deveria empurrar a narrativa, ao contrário, empaca o filme sempre que aparece.

Entre cenas ridículas e caracterizações de alguma complexidade, REAL acabou me parecendo menos ofensivo do que eu esperava, embora mais caricato do que foi o Brasil dos anos 1990.



Num gesto ousado, a Sessão Vitrine está lançando em cinemas o longa experimental MUITO ROMÂNTICO. Em torno de um fiapo de argumento – casal de artistas brasileiros se muda para Berlim, faz amigos e transforma seu apartamento num ateliê de arte alternativa -, Melissa Dullius e Gustavo Jahn reunem materiais filmados em 10 anos de vivência berlinense. São pequenas performances, andanças por áreas da cidade em transformação, conversas encenadas com amigos – esse tipo de coisa que Jonas Mekas ensinou a fazer mas poucos aprenderam direito.

O adjetivo “romântico” se refere ao amor do casal, em certo momento abalado pelo ciúme, mas também ao Romantismo alemão, que preconizava uma arte não acadêmica e uma vida libertada do racionalismo. Melissa e Gustavo se entregam a ações e atitudes sem finalidade aparente. Citam Godard e Bressane, fazem música de péssima qualidade e parecem quase sempre tão entediados quanto tediosos. Uma porta para o surrealismo de repente se abre na forma de uma passagem na parede do apartamento, através da qual o tempo e as identidades começam a se misturar. Com ajuda da cocaína, natürlich.

As imagens da película de 16mm, riscadas e vazadas de luz, assim como a inserção de fotos e a fragmentação abusiva nos transportam para o cinema experimental dos anos 1970 e 80, supostas raízes do trabalho de Melissa e Gustavo. Estamos no terreno do chamado “filme de artista”, comumente consumido por plateias muito especiais em ambientes não comerciais. Mesmo nesse contexto, MUITO ROMÂNTICO tem pouco a oferecer além de algumas imagens bonitas e um tênue insight do underground berlinense.

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