Filhos sacrificados em famílias sem amor

Sobre SEM AMOR e O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO

As paisagens geladas que abrem SEM AMOR logo serão substituídas por uma paisagem humana igualmente fria. Eis um dos retratos mais impiedosos que um cineasta jamais fez de sua terra natal. Andrey Zvyagintsev (O Retorno, Leviathan) não está mostrando apenas um casal que se separa envenenado pelo ódio recíproco e tem enorme dificuldade em concretizar suas novas relações amorosas. Ele cria um painel de gente indiferente, amarga e ressentida, mergulhada num processo social alienante em que as referências à religião só fazem avivar a presença do Mal. O primeiro sorriso só é esboçado aos 30 minutos de filme.

Uma das cenas mais duras envolve a dor do filho do casal perante os destemperos dos pais e o desprezo de que é vítima. Um dia, o menino simplesmente desaparece, o que obriga os pais a mal se tolerarem mutuamente na busca pelo filho indesejado. Nesse percurso de queixas e ferimentos emocionais recíprocos, Zvyagintsev se mostra um tanto misógino ao sobrecarregar as mulheres de hostilidades, carências e demonstrações de futilidade. Ao mesmo tempo, ele pontua o filme de observações sobre a clivagem da Rússia contemporânea. Uma sequência num restaurante expõe o esnobismo das classes emergentes em contraste com a vida cinzenta dos menos afortunados. A diferença de comprometimento entre a polícia e um grupo de voluntários na investigação do paradeiro do menino, por sua vez, informa sobre a falência das instituições oficiais e – talvez o único sinal de esperança – o advento de uma sociedade paralela voltada para a solidariedade.

Talvez SEM AMOR seja implacável demais para quem busca entretenimento. Talvez não atenda a todas as expectativas de uma dramaturgia fechada. Mas é magnetizante em sua severidade e sua precisão formal. Vez por outra, Zvyagintsev incorpora o casual e o não significativo, criando um suspense que parece burlar o nosso desejo de dedução. Não chega a ser manipulativo como Michael Haneke, mas tem uma similar agudeza quanto à perversidade humana quando desaparece qualquer sentido de compaixão.



Em matéria de filme bom e incômodo, O SACRIFÍCIO DO CERVO SAGRADO não fica muito atrás de Sem Amor. Mudamos da Rússia para os EUA, do naturalismo para as fronteiras do absurdo, mas a galeria humana guarda semelhante frigidez. Para isso contribui o estilo de direção do grego Yorgos Lanthimos, que combina audiovisual hipnótico e interpretações robotizadas. Depois de Dente Canino e O Lagosta, o diretor corrobora sua predileção também pelas metáforas animais.

Ecos de misticismo e de tragédia grega ressoam numa história de culpa e punição. O cardiologista Steven (Colin Farrell) esconde a responsabilidade que teve pela morte de um paciente em sua mesa de cirurgia. Tenta purgar a culpa adulando o filho do falecido (Barry Keoghan), que exige cada vez mais da sua atenção. Por um momento, anuncia-se uma espécie de variante de Atração Fatal, mas só até o ponto em que o projeto de vingança do rapaz sobre a família do médico se mostra de natureza sobrenatural.

Mais uma vez em parceria com o corroteirista Efthymis Filippou, o cineasta traz à baila fetiches (as mãos do médico, as fantasias eróticas dele com a mulher, vivida por Nicole Kidman), obsessões cotidianas (a organização da família de Steven) e telecomando psíquico numa história que só cessa de inquietar quando se torna por demais esotérica. Mesmo apostando tudo na estranheza e nem sempre ganhando, Yorgos Lanthimos tem o mérito da ousadia. Seus filmes têm ingredientes e cenas mais comuns em filmes de baixa categoria, mas raros de se ver tão bem realizados em filmes mainstream.

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