Bucha de canhão

Quem pensa que a história da ditadura civil-militar já foi contada vai tomar um susto com SOLDADOS DO ARAGUAIA. O documentário de Belisário Franca (do excepcional Menino 23) reúne as memórias e confissões de oito senhores que, na juventude, foram recrutados como soldados de baixa patente no sul do Pará para dar combate à guerrilha do Araguaia. São homens simples, que atuaram a serviço do Exército como “bucha de canhão” (a expressão é de um deles). Alguns reconhecem o fascínio que tinham pela farda e pela mítica das Forças Armadas, mas falam de decepção e de um trauma que levaram para o resto da vida.

Não se trata simplesmente de transformar o algoz em vítima, mas de mostrar como a experiência de sofrer um treinamento sádico na selva e testemunhar torturas alheias pôde levar aquelas pessoas a um estado de desencanto e a um futuro de pesadelos paranoicos. Nenhum deles admite ter matado ou supliciado alguém, e é bem provável que não mintam. Recordam-se com horror da obrigação de olhar nos olhos das vítimas e carregar sacos com pedaços de corpos de ativistas executados sumariamente. São depoimentos lancinantes e detalhados sobre a conduta do Exército naquele episódio dos anos 1972-1975, que incluía estupros, eliminação de “inimigos” durante voos de helicóptero (supostamente para Brasília) e destruição da agricultura de subsistência dos camponeses com o intuito de dizimar guerrilheiros.

Findo o conflito, esses soldados foram mandados de volta para suas vidas, sem divisas nem galhardões, e, com o tempo, tiveram que enfrentar medo e rejeição. Há os que ainda almejam o reconhecimento do Exército pelo trabalho prestado e os que não querem nem ouvir falar na corporação. Considerados como vítimas da violência de estado, muitos ex-soldados do Araguaia são atendidos pelo projeto Clínica do Testemunho, parte do programa de reparações da Comissão da Anistia. Vêm dali as poucas vozes adicionais constantes do filme.

Belisário Franca usa seus saberes na documentação da paisagem amazônica para construir um documentário de grande imantação climática. Os relatos dos ex-soldados, tomados em estúdio, expandem-se metaforicamente por imagens sugestivas da floresta e vinhetas ilustrativas à moda de Errol Morris. O senso de medida no uso desses recursos preserva e valoriza a força das falas, trazendo à tona um ângulo da História bem pouco conhecido.

2 comentários sobre “Bucha de canhão

  1. O preciso título , “Bucha de canhão”, sacado pelo jornalista e crítico Carlos Alberto Mattos, de uma das entrevistas do documentário “Soldados do Araguaia”, bem como todo o texto são de uma clareza ímpar.

  2. Também gostei deste documentário. Um episódio da nossa historia contemporânea ainda sob a obscuridade da sonegação. A fotografia é um das qualidades desse filme-doc do Belisário Franca.

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