Aikewara – memória indígena do Araguaia

A antropóloga Vik Birkbeck, programadora internacional do Festival do Rio, escreve sobre o documentário AIKEWARA – A RESSURREIÇÃO DE UM POVO

por Vik Birkbeck

Assisti a AIKEWARA, A RESSURREIÇÃO DE UM POVO, dirigido por Célia Maracajá e Luiz Arnaldo na última sexta feira, na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Não tinha ideia sobre o que me esperava, pensando ver um filme interessante sobre um povo indígena amazonense. Infelizmente estamos acostumados a ouvir histórias do massacre dos povos indígenas, os ataques constantes de latifundiários, mineradoras, companhias petrolíferas, hidreléctricas e todos os mandados que arregimentam para executar os trabalhos sujos que abrirão as matas para os seus negócios. Mas AIKEWARA conta uma outra história mais complexa e que vai além da expansão econômica, explorando as entranhas políticas do país.

O povo Suruí, protagonista do filme, habita justamente a área de Araguaia onde o PCdoB resolveu, em fins dos anos 1960, iniciar uma guerrilha para combater o regime militar da ditadura. Num primeiro momento os jovens que foram se instalar na região procuraram se integrar aos habitantes locais, às comunidades ribeirinhas, caiçaras e indígenas, fazendo amizades, participando das festas, se acostumando com os trabalhos nos castanhais e na pesca. Abriram pequenos comércios e fizeram muitos atendimentos médicos e aulas de alfabetização, e assim foram conquistando amizades na região onde ficaram conhecidos como “os paulistas”. Durou pouco. A partir de 1972, o exército brasileiro iniciou uma operação, que em breve escalou para uma operação de guerra, destinada a erradicar os aproximadamente oitenta jovens guerrilheiros.

Ao chegar no Brasil em meados dos anos 1970, tropeçando no português, eu lembro do episódio da Guerra da Araguaia contada em sussurros, fragmentos de uma história que já atingia um status mitológico na memória nacional. Somente de dez anos para cá, com as atividades da Comissão Nacional da Verdade, essa história vem ganhando estatísticas e relatos do que realmente aconteceu, de como o exército conseguiu sumir com quase oitenta pessoas no curso de três anos. Mesmo assim, nenhuma menção aos povos indígenas.

Duas falas da Célia Maracajá me impressionaram no debate após a exibição do filme: que ela ficou preocupada com a ideia de estar fazendo um filme de “talking heads”, com excesso de diálogo, e que o povo Aikewara Suruí a fez repensar o ofício de ator. Pois os Aikewara jamais entrariam na categoria de “cabeças falantes”, que afinal é um conceito ocidental duma humanidade aleijada, reduzida à atividade meramente cerebral. No Aikewara é todo o corpo que fala, o corpo dançante de uma cultura oral que redescobriu sua voz.

A repressão do exército não se limitou às operações sucessivas do Papagaio, Sucurí e Marajoara para eliminar não só os guerrilheiros, mas também a todos que os ajudavam ou socorriam. Mas teve ainda a Operação Limpeza, instaurada em 1975 pelo Governo Geisel, que teve por fim eliminar qualquer traço restante dos mortos, ossadas, documentos, qualquer sinal que pudesse levar a uma eventual identificação. O que dizer de um povo com riquíssima cultura oral à qual foi imposto o silêncio da repressão?

Vários relatos comprovam que nessa mesma época os povos indígenas da região sofreram muitas baixas, inclusive pelas doenças. Nos relatos dos anciãos Aikewara, no filme de Célia e Luiz Arnaldo, os guerrilheiros revivem. Ouvimos o riso da barriga de Osvaldão, soubemos da beleza da Sonia e da Cristina e da imensa crueldade dos espancamentos e torturas sofridos pelos guerrilheiros e todos aqueles percebidos como amigos dos mesmos. E o povo Suruí-Aikewara calou. Instalou-se a lei do silêncio. Acabaram as danças, os rituais. A cultura oral vive das histórias que conta. Silenciou tudo.

Somente 20 anos depois, quando os relatos da guerrilha começaram a ser feitos abertamente, os jovens da tribo foram insistir com os seus pais e avôs que era necessário contar, especialmente que o Major Curió saiu dizendo que cortar cabeças era uma prática dos indígenas da região. Entenderam que se eles não contassem a sua história, outros contariam uma versão deturpada. A possibilidade de retomar os fios da história possibilitou uma renovação cultural da tribo. Retomaram os rituais, as danças, a língua dos antigos. A memória é muito forte. Contam a história da Guerrilha da Araguaia chorando. E nesses relatos, mais do que qualquer imagem da época ou qualquer estatística, é possível visualizar aquele grupo de jovens esperançosos de mudar o destino do país.

O filme é belíssimo, a fotografia banhada na luz amazônica que deixa os rostos quase transparentes, como refletindo a alma de quem fala. A edição fragmentada dá a sensação do hiato da memória. Merece ser visto em todos os cantos. Parabéns a todos os que colaboraram para criar essa obra.

Vik Birkbeck

2 comentários sobre “Aikewara – memória indígena do Araguaia

  1. Pingback: ANIMAÇÃO RUSSA + SILVIO DA-RIN (MISSÃO 115) + DENISSON EM MONTREAL + CINEMA RESISTÊNCIA & DEBATE NO SINDICATO DOS ENGENHEIROS RJ – Almanakito da Rosário

  2. Carlimnhos:

    *Aikewara*: a Vik não gostaria de ter replicado o texto dela, excelente, sobre o filme, para Carta? Há que mexer neste assunto. Estou mandando ainda hj *A Hora e vez do Magreb no Cinema.* *Posso intermediar a Vik junto ao Palhares.*

    L *éa Maria Aarão Reis*

    *Jornalista*

    *leareismaria@gmail.com * *Rio de Janeiro/Brasil*

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