Um doce deleite

TEMPORADA passa dias 21, 22 e 30 na Mostra Internacional de Cinema de SP

Com uma filmografia que não para de crescer em qualidade e maturidade, André Novais Oliveira e sua produtora Filmes de Plástico chegam ao nível de absoluta excelência em TEMPORADA. Trata-se de uma espécie de comédia neorrealista ambientada na periferia de Contagem, cenário de vida e de todos os filmes do diretor.

Perdoem o chavão, mas o bairro é realmente um personagem atravessado pelos demais. Condição essa evidenciada numa das mais belas sequências do filme, quando os comentários de um morador são cobertos por imagens das ruas e do casario.

Por ali circulam cinco inspetores de saúde pública em rondas de combate à  dengue. Visitam as casas, revistam quintais e lajes. Ao fim e ao cabo, estão na missão de salvar vidas. TEMPORADA, no fundo, lida com isso. Os pequenos gestos cotidianos com que as pessoas se salvam umas às outras.

O fio condutor é Juliana (Grace Passô), recém-chegada do interior de Minas para integrar o grupo. Juliana é ajudada por uma prima enquanto não consegue fazer contato com o marido, que sumiu do emprego. O título do filme alude a esse período de transição na vida de Juliana, quando ela tem a chance de descobrir a diferença entre solidão e liberdade.

TEMPORADA é um filme encantador em muitos aspectos. A maneira como André Novais – também autor do roteiro original – constrói o arco dramatúrgico é de uma delicadeza e eficácia perfeitas. Não há qualquer curva ou pontuação que não pareça provir espontaneamente das experiências vividas ou mencionadas pelos personagens. Tudo está nas deliciosas interações de Juliana com os colegas e com os moradores, com destaque para a comovente visita a Dona Zezé, mãe e estrela de filmes anteriores de André (Quintal, Ela Volta na Quinta) em sua última aparição antes de falecer.

Grace Passô, nossa “Fernanda Montenegra”

Sem cair em estereótipos de mineirice, o filme exala um humor irresistível nas conversas, que parecem não sair de um roteiro escrito, mas brotar do simples contato entre os atores. O elenco, aliás, é a força motriz de TEMPORADA, formando um conjunto tão coeso e “autêntico” quanto vemos nos filmes de Robert Guédiguian. Mesmo assim, é impossível não ressaltar a extrema sabedoria de Grace Passô na condução da personagem de Juliana em todas as minúcias de sua situação. Estou cada vez mais convencido de que Grace é a sucessora de Fernanda Montenegro no panteão das grandes atrizes brasileiras.

Quem também ganha espaço considerável para se destacar é Russo Apr no papel do colega Russão, responsável pelas mineirices mais impagáveis que se ouve no filme.

Acima de cada atributo individual (fotografia, trilha musical, edição, cenografia) paira a sensibilidade de André Novais Oliveira na construção desse poema de amor a seu lugar e sua gente. A combinação de fluência dentro das cenas e controle estético do quadro, a justeza de tom e de ritmo, e a convivência harmoniosa do drama e da comédia fazem de TEMPORADA um doce deleite, como se dizia antigamente.

Um comentário sobre “Um doce deleite

  1. Doce delete é uma expressão mineirossima , eu uso muito e fiquei curioso para ver o filme. Aqui não passa nada de Cinema Brasileiro. Triste

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