Viagem ao coração de Dora

ALMA CLANDESTINA passa dias 29, 30 e 31 na Mostra Internacional de Cinema de SP

Maria Auxiliadora Lara Barcellos foi uma das figuras mais belas e trágicas da resistência à ditadura de 1964. Médica de formação, entrou para a luta armada, foi presa e barbaramente torturada, depois banida em troca do embaixador suíço sequestrado. Viveu seis anos no exílio antes de se suicidar, em junho de 1976, atirando-se embaixo de um trem do metrô em Berlim.

Até então, conhecia-se Dora principalmente pelo impactante e recente Retratos de Identificação, de Anita Leandro, por referências contidas em documentários como 70, de Emilia Silveira, e pelas suas entrevistas a Haskell Wexler e Saul Landau no filme Brazil: A Report on Torture e a Luiz Alberto Sanz no curta Não é Hora de Chorar, além do longa em que Sanz fez seu perfil, Quando Chegar o Momento. Trechos desses três últimos filmes ajudam a compor um tratamento inteiramente novo da personagem em ALMA CLANDESTINA, que o diretor português José Barahona, aqui radicado, chama de “o filme que eu devia ao Brasil, que tanto me deu e dá”.

Sua abordagem é profundamente emocional, calcada sobretudo em cartas e textos de Dora e também de outras mulheres em situação de clandestinidade. Dora é interpretada por Sara Antunes com uma mistura precisa e preciosa de firmeza e fragilidade. Perdão, retirem a palavra “interpretada”. O que temos aqui não é alguém fazendo de conta que é a personagem, mas uma atriz que se aproxima de Dora, a princípio, brechtianamente, através de uma encenação teatral, para depois abandonar-se na sua própria comoção, a ponto de se descolar da personagem para ficar consigo mesma. O processo é interessante, embora arriscado como exercício de atuação. Sobre isso, leiam as observações do diretor ao final desse post.

Barahona se baseou numa peça nunca montada de Jorge Melo. A situação de palco é reproduzida através da figura de um diretor de cena (papel de Paulo Azevedo) que orienta Sara e com ela concebe o que seria o espetáculo. A estrutura do filme se monta em camadas: arquivos, encenação na linha do teatro-documentário, leitura e declamação de textos e cartas, depoimentos de parentes e ex-companheiros de ativismo de Dora que ajudam a recompor sua trajetória.

As diversas camadas convivem em constante sobreposição de vozes e imagens, como ecos de várias memórias que se fundem para restituir a figura de Dora. Talvez haja um certo excesso de acumulações que pode gerar um efeito estetizante, mas o conjunto resulta bastante coeso em sua polifonia.

O filme ressalta a profunda indignação de Dora com a miséria e as desigualdades brasileiras, mas está interessado também em buscar sua dimensão mais corriqueiramente humana, para além da persona política. Assim é que encontra detalhes comoventes de sua vida pessoal, bem como vasculha suas relações afetivas e familiares. Da infância em Minas à depressão do exílio, eis o retrato de uma mulher marcada pelo trinômio luta-desejo-morte. “Essa alma ferida que foi se deslocando lentamente para a clandestinidade”, como ela escreveu certa feita, nos chega com enorme empatia em ALMA CLANDESTINA.

Trecho de mensagem de José Barahona a este crítico:

“Foi a emoção e o lado sensorial que a partir de determinado ponto tomaram conta de mim e do filme. Desde o início que a ideia do Jorge (Melo), naquilo que tinha escrito, e minha era procurar a “pessoa” por trás do mito. Quem está por trás da guerrilheira, da mulher corajosa e incrível que fez tudo isso? Foi quando chegaram as suas cartas, e isso aconteceu pouco tempo antes da filmagem, que todos nós, incluída a Sara Antunes, nos tornamos ainda mais emocionais. Acredito, ou pelo menos assim o tentei, que mostrando um pouco do processo do teatro, espelho óbvio do filme, mostrando os seus erros e hesitações, a emoção da actriz possa ser justificada e mostrada, e o filme se transforme também num filme de alguém que mergulha na vida da Dorinha e com ela se emociona. Não penso que isso tire força politica ao filme. Antes pelo contrário, creio que Dora respira a inexplicável crueldade do mundo e se asfixia nele por ser alguém de uma beleza extraordinária. Não a beleza física, que a tem, mas a beleza das suas ideias e ideais. Dora e a Atriz se fundem uma na outra, como deve ser, e a obra que tentei construir é um filme que é um retrato de todos nós, os inconformados do mundo, aqueles que não aceitam e que na sua pequena escala tentam mudar o mundo. Aproximar Dora da Atriz, de mim, de todos é uma forma de dizer que cada um de nós tem o poder de movimentar o seu pequeno grão de areia de forma a ajudar a parar uma engrenagem que nos asfixia a todos.”

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