Grande como Tolstoi

GUERRA E PAZ no Youtube

A Mosfilm, icônica produtora russa e soviética, tem um canal no Youtube onde disponibiliza centenas de filmes de vários gêneros e várias épocas. Lá se pode encontrar desde clássicos mudos de Eisenstein e Dovjenko até longas de Andrei Tarkovsky, passando por dramas, comédias e filmes históricos mais recentes. Muitos deles têm legendas em inglês, alguns poucos em espanhol (como os de Tarkovsky) e pelo menos um excelente título em português: o monumental Guerra e Paz, de Serguei Bondarchuk (veja links no final da matéria).

Vale a pena procurar os que dispõem da opção “Traduzir automaticamente” no ícone de configuração da tela do Youtube, e então selecionar português. Testei alguns e as legendas ficaram bem razoáveis.

Guerra (Fria) e Paz

A Guerra Fria comia solta quando Tolstoi foi pivô de mais uma disputa entre os EUA e a URSS. Hollywood tinha ousado levar às telas o grandioso Guerra e Paz em 1956, numa superprodução dirigida por King Vidor com um estrelado elenco internacional. Foi sucesso mesmo na URSS, onde, lançado em 1959, teve mais de 3o milhões de espectadores. Os brios de Nikita Kruschev não descansaram enquanto não ordenaram a realização de uma versão ainda mais ambiciosa e mais fiel ao romance.

A preparação do Guerra e Paz soviético teve início em 1961 e as filmagens se estenderam por cinco anos. Se a de Vidor era uma superprodução, a de Serguei Bondarchuk teria de ser uma hiperprodução, a mais cara da história do cinema soviético. O Exército russo cedeu milhares de soldados, cerca de 900 cavalos e inúmeros veículos (terrestres e aéreos) para as cenas de batalha. O Kremlin se empenhou diretamente na liberação de verbas e recursos logísticos para as filmagens em diversas locações do país. Museus foram mobilizados para fornecer pinturas e objetos da cenografia. A própria escolha de Bondarchuk para a direção teve o dedo do Ministério da Cultura para afastar o nome originalmente cotado, o de Ivan Pyryev, que tinha muito mais experiência no ramo (O Idiota, Noites Brancas, Os Irmãos Karamazov).

Mas quem assiste ao filme em sua versão restaurada, de preferência numa tela quanto maior possível e com um bom som, comprova que o Politburo estava certo. Guerra e Paz é um dos filmes mais belos e espetaculares já feitos. Seja no fragor das multidões em batalhas a perder de vista, seja na suntuosa intimidade da corte imperial, a exuberância é o tom permanente.

Num conjunto de quatro livros e um epílogo, Tolstoi criou um retrato da elite política e militar russa à época das guerras napoleônicas, no início do século XIX. Enquanto os generais se preparam para aliar-se à Áustria e resistir à invasão de Napoleão Bonaparte, cinco famílias aristocráticas têm seus membros engajados no conflito ou em questões amorosas. No pano de fundo, o escritor reflete sobre o horror da guerra, a incapacidade do homem de exercer o arbítrio para fugir ao determinismo histórico e a dimensão mundana da vida na nobreza.

Na adaptação escrita com Vasiliy Solovyov, Bondarchuk deu asas à grandiosidade do livro. Fez quatro filmes em série, sendo o primeiro dividido em duas partes, totalizando sete horas de duração. Eliminou quase inteiramente as tramas relativas a duas das cinco famílias, concentrando o foco sobre o frio e trágico príncipe Andrei Bolkonsky (Vyacheslav Tikhonov), o bondoso mas fraco conde Pierre Bezukhov (interpretado por Bondarchuk) e a jovem, intensa e volúvel Natasha Rostova (papel confiado à bailarina Lyudmila Saveleva).

Paixões arrebatadoras e traições conjugais se alternam com discussões sobre o espírito nacionalista russo e o orgulho perante o inimigo. Um elenco extraordinariamente talentoso falando o texto de Tolstoi, filmado com todos os requintes imagináveis, torna o filme ininterruptamente palpitante. É, sem dúvida, uma obra conservadora e clássica, que vez por outra apela a um narrador desencarnado ou a solilóquios interiores para dar conta minimamente das altitudes literárias do original. Em compensação, utiliza técnicas inovadoras capazes de excitar o espectador mais exigente.

A sequência do baile em que Natasha faz sua estreia nos salões e conhece Andrei, ouso dizer, é mais impressionante que sua similar de O Leopardo, de Visconti. Para atingir aquela fluidez da filmagem, o cinegrafista circulava entre os dançantes com a câmera na mão e os pés em patins. Câmeras corriam em cabos sobre o salão e lenços coloridos eram agitados frente às lentes para marcar os cortes. Nas cenas de guerra, baseadas na iconografia bélica clássica, o arrojo das câmeras, da direção de arte e da pirotecnia atesta que o nível do recente 1917 já tinha sido atingido mais de 50 anos antes. A impressão é de que Guerra e Paz desconsiderou olimpicamente a lei da gravidade.

Nem tudo, porém, é admiração no histórico de reações ao filme. Ele foi acusado de fazer propaganda do Exército russo, descartar as observações mais filosóficas de Tolstoi e fazer uma representação rasa de seus personagens. Tudo isso me parece secundário diante da forma vibrante, às vezes ácida e sempre esteticamente deslumbrante com que Bondarchuk nos faz perceber os humores e os delírios da alma russa.

Os links dos quatro filmes:

Filme 1 parte 1
Filme 1 parte 2
Filme 2
Filme 3
Filme 4

 

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