Sarravá MPB!

SARAVAH no Youtube

Baden Powell e Pierre Barouh

Durante 36 anos uma amostra expressiva da música popular brasileira ficou desconhecida do público. O documentário SARAVAH era praticamente um mito até que em 2005 a gravadora Biscoito Fino o lançou em DVD. Agora pode ser visto no Youtube.

É um filme de gringo, sem dúvida, mas o material não podia ser mais brasileiro. Em fevereiro de 1969, o cantor francês Pierre Barouh, apaixonado pela música brasileira, passou três dias filmando encontros informais entre músicos jovens e veteranos no Rio de Janeiro. Não preparou nada, o que redundou em filmagens amadoras, mas por isso mesmo bastante descontraídas.

Um tesouro de imagens raras, como Pixinguinha jogando conversa fora em francês e tocando seu saxofone numa jam session com João da Baiana e Baden Powell. Outro momento antológico é o velho João cantando ponto de candomblé e dizendo no pé. Paulinho da Viola sem camisa e Bethania de peruca lisa fazem duetos numa mesa de bar em Itaipu, onde Paulinho explica a Barouh como funciona uma escola de samba. Bethania estraçalha (no mau sentido) Baby e Tropicália durante um ensaio na boate Sucata (ou será na Barroco?), mas encanta com Pra Dizer Adeus, acompanhada pelo piano de Luís Carlos Vinhas e o trombone de Raul de Souza.

Mas a estrela maior é Baden, cicerone de Barouh na viagem e com quem tinha gravado, três anos antes, Samba Saravah, a versão francesa do Samba da Bênção, de Baden e Vinícius. Esta gravação, incluída na trilha sonora de Um Homem, Uma Mulher, de Claude Lelouch, havia ajudado a popularizar a Bossa Nova na França. Na conversa com o amigo, Baden comenta sobre as raízes africanas da MPB e dá exemplos luminosos com seu violão insuperável enquanto mantém o cigarro ativo entre os dedos mínimo e anular.

Não se assustem se de repente, ali pelos 61 minutos, o filme mudar completamente de registro. Parece-me um extra do DVD, gravado 27 anos depois, quando Pierre Barouh foi levado por Walter Salles à favela do Cantagalo para conhecer o compositor Adão Xalebaradã, que depois participaria de dois curtas de Salles. Apesar da verve de Adão, esse complemento é tecnicamente infame, assim como outros registros que se seguem, numa edição confusa, mostrando Sivuca, a cantora Bïa Krieger e os filhos de Baden Powell. Faltam legendas, conexão e sincronia entre som e imagem, dando a entender que se tratava de material puramente afetivo e sem condições mínimas de apresentação.

Em todo caso, os primeiros 60 minutos, mesmo com deficiências de som, são capazes de nos reconectar com um período glorioso da MPB. Em tempos tristes como o nosso, vale como um refrigério. Sarravá!

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