Alice no país sem maravilhas

ALICE JÚNIOR no streamingNa sua carteira de identidade consta o nome Jean Genet Júnior, vindo do pai, um francês pesquisador de perfumes. Mas Alice quer ser Alice Júnior, adolescente transgênero que fala com o mundo através de um canal no “Utube”. O pai é bacana, lhe apoia em tudo, mas de repente precisa passar uma temporada a trabalho numa pequena cidade do interior do… Paraná.

Alice Júnior provoca um susto logo nos créditos de abertura: “Moro Filmes” é a distribuidora, e órgãos do governo paranaense estão na produção. Mas o filme de Gil Baroni nada tem a ver com o pior conservadorismo brasileiro. Muito pelo contrário, é um libelo juvenil contra a opressão e a caretice.

Na escola em que passa a estudar na fictícia Araucária do Sul, Alice vai confrontar o bullying de colegas binários e machistas, uma diretora megera e as confusões amorosas de sua condição. Para uma menina trans, a expectativa do primeiro beijo na boca pode levar a algum tipo de surpresa.

Apesar de parecer mais velha e transmitir mais segurança do que seria de se esperar da personagem, a atriz estreante Anne Celestino Mota defende com graça e legitimidade um papel que exige presença constante e intensa na tela. As interações dela com a divertida Thaís Schier, como a colega-repórter que vira amiga e parceira, já deram prêmios às duas no Festival de Brasília. Anne foi eleita melhor atriz também no Festival Mix Brasil, junto com a premiação de melhor filme. Na Mostra Geração do Festival do Rio, Alice Júnior venceu nas categorias direção e melhor filme pelo júri popular.Alice é uma menina cercada de estereótipos maniqueístas: de um lado, o pai gente fina demais, o professor super legal, os poucos coleguinhas sem preconceito, uma esotérica de alto astral; de outro, as patricinhas, os garotos transfóbicos, o gay enrustido; o corpo docente retrógrado. Cada um paree ter um rótulo estampado na testa, o que torna o filme excessivamente didático e “mensageiro”.

Além disso, depois de um início bastante promissor, o roteiro começa a atropelar os fatos e perder substância em diálogos fracos, cenas mal resolvidas e arranjos de dramaturgia típicos do feel good movie, aquele tipo de filme feito para afagar os bons sentimentos.

O público adolescente pode curtir as pequenas-grandes ousadias e o visual inspirado na estética dos Youtubers, com muitos efeitos naïves sobre as imagens. A fotografia e a cenografia, baseadas em cores “fofas”, lembram os filmes de Esmir Filho, especialmente Saliva e Os Famosos e os Duendes da Morte, com os quais Alice Júnior guarda algumas semelhanças temáticas.

Apesar de insuficiências visíveis, a simples existência de um filme brasileiro sobre adolescente trans já é um belo atrevimento nos dias que correm. Quem dera o Paraná fosse invadido por muitas Alice Júniors.

Alice Júnior está nas plataformas Vivo Play, Oi Play, Google Play, iTunes, Now, Youtube Play e Looke.

 

 

 

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