Mulheres de Atenas

MEDEIA POR CONSUELO DE CASTRO e O TRABALHO DELA no streaming

A Grécia está presente no streaming com dois títulos diametralmente opostos. Em vários sentidos. A plataforma Belas Artes à la Carte apresenta o “teatrofilme” Medeia por Consuelo de Castro, adaptação subversiva da tragédia de Eurípedes. A recém-inaugurada Reserva Imovision traz o longa inédito O Trabalho Dela (I douleia tis), passado na Atenas dos nossos dias. Teatro grego antigo e naturalismo contemporâneo se encontram no protagonismo de mulheres que lutam contra o destino em sociedades patriarcais, interpretadas por duas atrizes em estado de graça.

Bete Coelho tem uma performance maiúscula como a Medeia triplamente atormentada pela traição de Jasão – que a abandonou para casar-se com a filha do rei Creonte –, pela pecha de bruxa e pela condenação à imortalidade. No original de Eurípedes, ela se vinga envenenando os dois filhos para ferir o marido. Na versão da dramaturga Consuelo de Castro (1946-2016), o desfecho tem diferenças marcantes. A heroína é mais vítima do acaso que da sua vontade. Além disso, Consuelo incrementou a leitura política da peça e inseriu sexo e palavrões.

Concebido para o palco e inviabilizado pela pandemia, o espetáculo se reinventou no território híbrido pelas mãos dos diretores Gabriel Fernandes e Bete Coelho. A realização é de grande impacto, com a mescla de palco e projeções virtuais, cenários altamente sugestivos tendo como base madeira calcinada e atuações viscerais do elenco. Bete Coelho mata a saudade que tínhamos dessa grande atriz, que aqui lembra por vezes o domínio vocal e a presença potente de Fernanda Montenegro.



Demos agora um salto de 26 séculos para conhecermos Panagiota, a modesta dona de casa semi-analfabeta de O Trabalho Dela, filme de estreia do diretor grego Nikos Labôt. O pano de fundo é a crise econômica por que passava a Grécia em 2017, marcada por altas taxas de desemprego, carestia, greves e protestos nas ruas. Com o marido machista desempregado e os dois filhos enfrentando problemas da adolescência, Panagiota leva uma vida de escrava doméstica.

Uma promessa de mudança chega quando ela consegue um emprego de limpeza num novo shopping center. Assim vai obter uma relativa libertação do jugo familiar, fazer amizades, sentir-se numa nova comunidade e adquirir certa dose de autonomia. O carinho com que ela trata seu primeiro crachá e a satisfação com que aprende a dirigir um aspirador de pó motorizado dão a medida de sua conquista.

Mas o balanço é difícil, pois ela estará apenas trocando de senhor, deixando-se explorar num trabalho exaustivo e sob constante ameaça de demissão. Afinal, o descarte de mão de obra é parte do jogo das relações de trabalho neoliberais.

O Trabalho Dela lida com esse fio tênue entre a resignação profissional e a realização pessoal. Panagiota me lembrou a Cabiria de Fellini em sua relação de submissão perante a figura masculina, mas com um suave toque feminista que se expressa na atitude e no sorriso finais de Panagiota. A personagem caiu como uma luva na atriz Marisha Triantafyllidou, irretocável nas modulações de uma mulher em vias de desabrochar. O filme se vale também de uma forma enxuta, sem trilha musical nem adornos a concorrer com sua objetividade dramática.

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