Première Brasil: Refugiados sírios e um preto velho

Minhas impressões sobre o documentário DEPOIS DA PRIMAVERA e a ficção CASA DE ANTIGUIDADES. Os filmes da Première Brasil 2020 estão disponíveis gratuitamente na plataforma Innsaei.TV conforme os dias e horários da programação.

Uma família entre a Síria e o Brasil

A partir de um encontro fortuito em carrinho de lanches árabes, o casal de cineastas Isabel Joffily e Pedro Rossi conheceram Hadi e Adel, dois irmãos que emigraram da Síria para o Brasil em 2012 e souberam se adaptar à vida no Rio de Janeiro. Um estudava Química com uma bolsa da UFRJ; o outro se virava como motorista. Mantinham relação frequente e carinhosa com os pais, que ficaram na devastada Aleppo, cidade que ainda sofria bombardeios americanos e russos.

O documentário Depois da Primavera desvenda esse pequeno núcleo de lembranças, afetos e reconstrução da vida. Isabel e Pedro nem sempre conseguem preencher as lacunas que vão ficando pelo caminho (por exemplo, o fato de o pai dos rapazes ter vindo antes da mãe ao Brasil não fica claro). Várias cenas parecem descontextualizadas ou com sua temporalidade mal definida. Isso, porém, afeta pouco o que mais importa no filme, que é a condição desses refugiados e a simpatia que inspiram.

Depois de participarem dos protestos da Primavera Árabe, os dois irmãos se integraram às lutas contra o golpe de 2016 e a ascensão do fascismo no Brasil. Conversas em família tratam dos paralelos políticos entre os dois países. O pai é um ex-comunista que sustenta a fibra democrática anti-imperialista e critica a presença da religião nas pautas revolucionárias árabes. Hadi tem opiniões progressistas e se alinha aos que defendem Bashar al-Assad contra os interesses internacionais que se debruçam sobre a Síria.

Nos cinco anos cobertos pelas filmagens, a situação em ambos os países só fez piorar. Para a família Bakkour, ficou o sonho de uma possível reunião em futuro ainda sonhado.


Boi misterioso

Andei lendo alguns comentários sobre Casa de Antiguidades antes de escrever esta resenha. Em geral, os críticos apreciaram o filme mais do que eu. Mas cada texto que li parecia se referir a um filme diferente, inclusive na descrição dos acontecimentos. Alguém pode argumentar que isso é um mérito. Seria uma obra aberta a percepções e interpretações variadas. No entanto, eu arrisco dizer o contrário. Cada um viu um filme diferente porque Casa de Antiguidades é um belo conjunto de disparates.

Em seu longa de estreia, João Paulo Miranda Maia, brasileiro residente na França, procura combinar gêneros – alegoria política, drama racial, terror sobrenatural, laivos de ficção científica – e referências étnicas brasileiras numa história de intolerância. Antonio Pitanga, com sua carga de significados acumulados desde Barravento, vive o ex-boiadeiro goiano Cristóvão, empregado de uma fábrica de laticínios gerida por alemães no interior de Santa Catarina. A desagregação é total. Cristóvão não entende o idioma de seus patrões. O boi para ele é tradição e pertencimento, enquanto para a fábrica é apenas uma mercadoria. A cidade onde ele passa a trabalhar é uma colônia alemã cujos homens se vestem como nazistas e meninos portam armas. Os dirigentes da fábrica abraçam uma campanha separatista que pretende desligar os estados de São Paulo para baixo do resto do país, ou seja, do “Norte corrupto”.

Nesse contexto, o preto velho Cristóvão será alvo de vários tipos de agressão real ou imaginária, algumas delas tipificadas por figuras de olhos amarelos brilhantes. Quando decide reagir, é de uma forma desastrada ou meramente simbólica, seja opondo o seu berrante à dança bávara no bar, seja encarnando o boi misterioso do folclore. Mas antes disso ele verá coisas estranhas ocorrerem numa casa abandonada que passa a frequentar, repleta de objetos antigos ligados à sua consciência de origem.

A fotografia sofisticada, a direção de arte caprichada e o ritmo dilatado conferem uma atmosfera potencialmente intrigante, mas que se esvai na falta de foco narrativo. Há uma espacialidade bastante confusa entre as várias locações, gerando uma desorientação que não produz nada de especial.

A afasia de Cristóvão é compensada pela presença física de Pitanga, o que não acontece com os demais personagens. Os colonos germanófilos são figuras unidimensionais que parecem ter saído de um filme de Aki Kaurismäki sem aquele humor característico. Por sua vez, Jennifer, a moça negra do bar, sugere o papel de um token, mas tampouco se consolida como tal, permanecendo num limbo de significação.

A violência assumida gradativamente por Cristóvão, inclusive contra uma mulher decente, não permite compreender o arco dramático do personagem. Por essa e outras razões, discordo dos paralelos que se fizeram entre esse filme e Bacurau.    De qualquer forma, pode ser um desafio para quem quiser decifrar sua simbologia e encontrar nexos em sua exótica fabulação.

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