Guru da juventude

É Tudo Verdade: KURT VONNEGUT: DESPRENDIDO NO TEMPO

por Paulo Lima


Kurt Vonnegut alcançou o sucesso literário com seu romance Matadouro Cinco, sobre sua experiência como prisioneiro de guerra, aos 20 anos, numa Dresden devastada pelas bombas aliadas. O livro saiu em 1969 e foi escrito com as chaves da sátira e da ficção científica. A cada drama descrito, seu protagonista Billy Pilgrim se resignava: “Coisas da vida”. Matadouro Cinco resultou da perseverança, tendo passado por várias versões, inclusive como peça de teatro. Era o livro certo para a época certa: a guerra do Vietnã.

O documentário Kurt Vonnegut: Desprendido no Tempo (Kurt Vonnegut: Unstuck in Time) visita a história do escritor que foi considerado o “oráculo da juventude” dos anos 1960. Robert B. Weide, seu diretor, tornou-se amigo de Vonnegut e participa do filme contando como se aproximou do seu personagem. O longa opera então em duas camadas que se entrelaçam. Weide, que viu sua vida ser transformada aos 16 anos depois da leitura de um romance de Vonnegut, justifica sua participação como necessária para esclarecer porque levou tanto tempo para concluir seu projeto. O filme transita então por esse duplo percurso. A amizade do cineasta com seu objeto franqueia a Weide acesso privilegiado aos vastos arquivos familiares do escritor.

Vonnegut, que morreu em 2007 aos 84 anos, veio de uma linhagem de imigrantes alemães que deixaram uma profunda marca na formação de Indianápolis. Ele foi o caçula da família, a primeira plateia para o autor engraçado que viria a se tornar. O humor, que se manifesta cedo, seria a marca de sua literatura e de sua personalidade. “Meus livros são piadas, mosaicos de piadas, sobre assuntos sérios: sobre a morte, sobre doença, sobre a guerra e coisas desse tipo”, diz num dos muitos registros do documentário. Sua risada ecoa em muitos momentos do filme.

Nem mesmo uma mãe depressiva turvou sua infância, que ele descreve como feliz. A situação confortável da família, porém, foi atingida pela Grande Depressão. Ele se casa e se torna pai. Para ganhar a vida, trabalha na General Electric, em atividades publicitárias. Incentivado por Jade, a esposa, se dedica à literatura. Com a venda dos primeiros contos, decide abandonar o emprego e vira escritor em tempo integral.

O filme de Weide revela que, sem a fé de Jade no talento do marido, que encorajou incansavelmente, Kurt Vonnegut teria desistido da escrita. A mesma Jade seria posteriormente trocada por outra mulher, quando o marido se transforma numa celebridade com a explosão de Matadouro Cinco Um dos valores defendidos pelo escritor como antídoto contra a solidão na velhice era a constituição de uma família com muitos filhos. Ele chegou a adotar os quatro filhos pequenos da irmã Allie, depois de sua morte, que se somaram aos três filhos do escritor. No entanto, ter abandonado a mulher, que acreditou e apostou no seu talento, tisna e contradiz a imagem pública de Kurt Vonnegut de um divertido sábio bonachão.

O documentário de Weide deixa claro que a vivência da guerra desenhou um trauma profundo em Kurt Vonnegut e determinou os rumos do que veio a escrever, trauma que ele assim resume: “O que há para ver é tão nojento, tão horripilante, você não quer mais ouvir falar e não quer falar sobre isso”.

Como retrato de um escritor elevado à condição de guru por seus jovens leitores, a exemplo de um Salinger, porém brincalhão e nada recluso, Kurt Vonnegut: Desprendido no Tempo mostra que a literatura, a despeito dos dramas que relata, também pode ser consagrada por uma dimensão lúdica e de leveza, apesar das críticas dirigidas a Vonnegut de que era um autor muito fácil. Coisas da vida.

Paulo Lima

Exibição:
04/04 – 17h – online: É Tudo Verdade Play – Limite de 1500 visionamentos.

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