PRISCILLA
Baseado no livro de memórias de Priscilla Presley (Elvis and Me) e produzido por ela, Priscilla não poderia deixar de ser um filme completamente autorizado. Ainda assim, é curioso que sua personificação na tela não pareça ambicionar muito mais do que ela terá sido na realidade: um bibelô nas mãos de Elvis Presley durante a união deles entre 1959 e 1973.
Ao contrário do que fez em Maria Antonieta, Sofia Coppola renuncia a qualquer reinvenção para se ater a um modelo convencional de biografia de casal. A partir do primeiro encontro, num bar da Alemanha, o filme descreve o começo do namoro entre a garota de 15 anos e o astro já popularíssimo aos 24, a ousada mudança de Priscilla para Graceland, o casamento, o nascimento de Lisa, as turbulências conjugais e o fim do romance. Essa história já havia sido contada no filme Elvis and Me, de Larry Pearce, em 1988, mas quem se lembra?.
Com seu jeitinho de boneca mignon, a atriz Cailee Spaeny (melhor atriz em Veneza) serve bem à imagem da menina encantada com a proximidade com Elvis, sonhada por tantas garotas pelo mundo, mas que logo compreenderá o seu papel. A figura da ninfeta é sublinhada por uma cena em que Priscilla pinta as unhas à maneira de Lolita no filme de Kubrick. Elvis, por seu turno, é mostrado na intimidade como um cara de temperamento instável e um macho patriarcalista que quer decidir tanto sobre as roupas da namorada quanto sobre o momento adequado à primeira relação sexual.
O inferno conjugal de Priscilla é a superexposição do marido, envolvido em fofocas de flerte com atrizes e adepto de leituras esotéricas e de uma convivência viril com outros rapazes. O consumo de drogas, embora dê as caras, não tem seus efeitos explicitados dramaticamente. Em certa medida, essa parece ser uma biografia sanitizada para não ofender a ninguém.
Talvez para não ofuscar o protagonismo de Priscilla, ou por alguma questão de direitos autorais, Elvis não aparece em ação, nem como cantor, nem como ator. Mas tampouco se pode dizer que ela domina o filme em sua passividade apaixonada. Seja em guerrinha de travesseiros, seja em discussões acaloradas, é o casal improvável que desfila sua inocência e sua inviabilidade. Como cinema, apesar da simpatia e do show de figurinos, acho Priscilla uma contribuição menor de Sofia Coppola a suas investigações sobre mulheres às voltas com a celebridade.
>> Priscilla está nos cinemas e na plataforma Mubi.


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