FAMÍLIA
Eu ando mesmo às turras com o cinema japonês. Depois de Dias Perfeitos e O Mal não Existe – que apreciei muito menos que a maioria dos críticos e das pessoas conhecidas –, meu desapontamento é ainda maior com esse melodrama dirigido por Izuru Narushima. Violência e ternura se alternam desajeitadamente numa história recheada de estereótipos.
Para nós é uma surpresa ouvir gente falando em português já na abertura. Parte do filme se passa em torno de um conjunto habitacional povoado por brasileiros, dekasseguis desiludidos com as promessas de prosperidade no Japão. Perto dali, o oleiro Seiji (Koji Yakusho, de Dias Perfeitos) tenta evitar que o filho siga sua decadente profissão, instando o rapaz a continuar seu trabalho como engenheiro na instalação de uma fábrica na Argélia. Esse dois núcleos vão interagir a partir da relação de Seiji com dois jovens brasileiros. Um deles é perseguido por uma gangue sanguinária, cujo líder é um homem traumatizado por um certo acidente provocado por brasileiros.
Para equacionar a história, o filme lança mão de uma série de reviravoltas romanescas e lugares-comuns que incluem brasileiros em roda de samba, show de hip hop e churrasco; guerrilheiros argelinos fazendo reféns; e mafiosos japoneses insolentes e impiedosos. Narushima abusa de inverossimilhanças como uma cena de sexo logo em seguida a um dos parceiros ter sido massacrado pela gangue, ou a visita imprudente de Seiji ao covil dos gângsteres.
No fundo de tudo, entre perdas, comoções e ferimentos, impera o desejo de formar uma família. Daí que cada contratempo seja compensado por uma manifestação de afeto e acolhimento, sempre embalada por piano suave. A tendência de uma certa dramaturgia japonesa para o dramalhão não podia ser mais explícita.
>> Família está nos cinemas.

