Suruba de pulsões

MOTEL DESTINO

No fundo, Motel Destino é uma variação do clássico motivo de O Destino Bate à Sua Porta, Porto das Caixas e Obsessão, de Visconti: um forasteiro se amazia com uma mulher casada e ambos planejam matar o marido abusivo. O componente erótico, determinante em todos os casos, é aqui enfatizado pela ambientação num motel perdido em algum lugar do Ceará. Um motel desprovido de isolamento sonoro, o que faz com que os ruídos do sexo se espalhem pelo estabelecimento e lancem um constante chamado à libido e à curiosidade alheia.

Como outros filmes de ficção de Karim Aïnouz, Motel Destino é movido mais a pulsões do instinto que a mecanismos psicológicos. Heraldo (Iago Xavier), o rapaz que tenta escapar de bandidos após a morte do irmão mais velho, é a pulsão de fuga e sobrevivência. Dayana (Nataly Rocha), a sócia do motel, representa a pulsão do sexo. Elias (Fábio Assunção, em atuação histriônica) é o marido que encarna a pulsão de caos e destruição.

Além dos personagens, o embate das pulsões está também no choque de cores berrantes que dominam os cenários. Para isso, Karim troca todo o naturalismo que se esperaria daquele lugar por uma estética do artificialismo. Os lençóis vermelhos e as paredes policrômicas do motel gritam na imagem como a reivindicar um expressionismo carregado, estrepitoso.

Há, ainda, o mote paralelo dos animais, símbolos do instinto selvagem que domina os humanos: a cobra na jacuzzi, o pássaro na piscina, os burricos performando violência sexual. Quando fazem sexo, as pessoas também agem como animais, sem lugar para carícias nem delicadezas.

Se o inconsciente pulsional daquelas criaturas está bem explícito em tantos níveis, Motel Destino não parece tão bem sucedido no que diz respeito ao restante da dramaturgia. O núcleo dos bandidos é apresentado somente como um rascunho, o que torna confusas as razões pelas quais Heraldo está sendo ameaçado. O próprio triângulo de amor e ódio central carece de um tratamento mais cuidadoso com suas complexidades, ficando quase sempre restrito aos impulsos básicos de cada um. Elias, o marido, é o que melhor se aproxima de um desenho mais elaborado, mas ainda assim refém da caricaturização.

Toda a sofisticação estética do filme, bem servida pela fotografia primorosa de Hélène Louvart, não disfarça a grande “barriga” que ocupa a parte central. A ciranda de sexo, voyeurismo e medo se estende de maneira um tanto repetitiva. E o suspense almejado não se concretiza satisfatoriamente.

>> Motel Destino está nos cinemas.

 

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