Mãos à obra

PROIBIDO A CÃES E ITALIANOS

O veterano mas bissexto animador francês Alain Ughetto, vencedor de um Prêmio César em sua categoria pelo curta La Boule em 1985, reapareceu em 2022 com essa história da imigração de sua família da Itália para a França no começo do século XX. O caráter pessoal do filme é sublinhado não só por fotos familiares, mas principalmente pela intervenção do diretor com suas mãos interagindo com os personagens de stop motion. Isso é um dos fatores do encanto singelo de Proibido a Cães e Italianos (Interdit aux chiens et aux Italiens).

Para fugir da miséria rural e do fascismo, a família Ughetto se dispersou na partida para a Suíça e a França como trabalhadores nômades. Os italianos, então, tinham fama de ser submissos e habilidosos nos ofícios mais rudes. Eram valorizados como mão de obra e, ao mesmo tempo, discriminados por sua origem modesta. A frase do título aparece em dado momento para exemplificar esse tratamento.

Ughetto faz alusões ao preconceito xenófobo, ao oportunismo da Igreja católica e às falácias do fascismo. Mas seu filme não se pauta por nenhum proselitismo político. O foco está no drama da família, na sucessiva perda de jovens para a guerra e os acidentes de trabalho, assim como na resiliência dos que sobrevivem e formam novas famílias.

O próprio diretor narra a história de seus avós, auxiliado pela atriz Ariane Ascaride (mulher e estrela dos filmes de Robert Guédiguian) no papel da avó Cesira. Um mix gracioso de animação e live action quebra aqui e ali o ilusionismo da técnica e deixa amostras do artesanato da animação. As casas de papelão ou de abóbora e as árvores de brócolis, por exemplo, não dissimulam seus materiais. Para completar, a música do venerando Nicola Piovani nos sintoniza com a clássica sensibilidade italiana.

>> Proibido a Cães e Italianos está nos cinemas.

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