PASÁRGADA
O ofício do ornitólogo exige paciência, a suprema virtude da espera. Ele precisa estar quieto por longas horas para flagrar um pássaro, ou simplesmente o seu piado. Dira Paes, em sua primeira experiência na direção, requer do espectador uma disposição semelhante para esperar que o filme “apareça”. Só depois de 50 minutos é que surgem os primeiros sinais de que existe uma trama no ar além dos pássaros. É quando o guia mateiro Manuel (Humberto Carrão) finalmente quebra o gelo da ornitóloga Irene (Dira) com suas “conversas” com os pássaros e, pouco depois, descobre na mochila dela um objeto que o intriga.
O roteiro de Pasárgada investe nos tempos distendidos e no desenho muito tênue dos personagens. Irene é uma mulher de meia idade e perfil opaco. Sabemos que vive afastada da filha e da família, encontrando prazer somente no contato com a natureza. Sua pesquisa na Mata Atlântica é supervisionada à distância por um homem estrangeiro (Peter Ketnath), que a pressiona a encontrar um tipo raríssimo de pássaro que será traficado para Dubai.
A revelação precoce dessa informação é como um spoiler interno, que dissipa qualquer possibilidade de surpresa. Mais adiante, um crime obscuro vai ensaiar um esboço de ação, que tampouco consegue surtir maior efeito.
Causa estranheza que Irene digite “ornintóloga” no seu notebook, onde boa parte da dramaturgia acontece. Resta a capacidade de Dira Paes de expressar a paixão de Irene no olhar, assim como o seu empenho em construir uma personagem trágica. Pasárgada é uma estreia tímida para uma diretora que ainda pode dar o melhor de si, tal como já faz como atriz há quase 40 anos.
>> Pasárgada está nos cinemas.

