Rindo do rei

A FAVORITA DO REI

Pola Negri, Dolores del Rio e Priscilla Dean foram algumas atrizes que antecederam Maïwenn no papel de Jeanne duBarry, a última e “escandalosa” amante oficial de Luís XV. Com sua beleza pouco ortodoxa, a badalada diretora-atriz francesa escalou a si própria no papel de uma mulher irresistível. Poderia ser uma escolha infeliz não fosse o roteiro de A Favorita do Rei (Jeanne DuBarry) em sua maior parte uma comédia de costumes.

De alguma forma, Maïwenn está no filme como um olhar contemporâneo que contemplasse a etiqueta ridícula e as hipocrisias da corte às vésperas da Revolução Francesa. Nós nos identificamos com ela. Filha de um monge e uma cozinheira, expulsa de um convento e de outros lugares por sua tendência à libertinagem, a plebeia Jeanne chega a Paris como amante do cafetão Jean-Baptiste duBarry. Como de hábito na época (também no Brasil, como vemos no romance O Chalaça, de José Roberto Torero), era motivo de orgulho para os homens ceder suas mulheres à cama do rei em troca de dinheiro e favores. Foi nesse clima de amoralismo e servidão voluntária que Jeanne caiu nas graças de Luís XV e se tornou cortesã.

O termo “graças” aqui tem dois sentidos. Jeanne quebrava todos os protocolos e parecia zombar da vida na corte, assim divertindo o rei e atraindo o ódio da família real. Johnny Depp como Luís XV é mais uma piada. Quase sem falas, ele é apenas um ícone que se vale de sua persona para gerar comicidade. Os exames ginecológicos preparatórios da primeira noite de Jeanne com o rei são hilariantes ao mesmo tempo que ofensivos. Um dos presentes que ela recebe do soberano é uma criança negra para ser seu brinquedo.

É uma pena que o filme não se mantenha nessa linha mais ácida até o final. A doença e a morte do rei lançam as redes de um drama choroso sem que o espectador tenha sido preparado para mudar o registro. Mas até ali Maïwenn entretém gostosamente, e a produção enche os olhos. Locações autênticas em Versailles, figurinos, perucas e maquiagens na fronteira entre a fidelidade e a sátira, elenco de primeira bem afinado na proposta. Embora seja um espetáculo-padrão, A Favorita do Rei veicula leitura sardônica de uma monarquia já condenada à guilhotina antes do tempo.

>> A Favorita do Rei está nos cinemas.

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