Meu amor carcereiro

OS SAPOS e A VOZ QUE RESTA 

Dois filmes brasileiros lançados esta semana lidam com relações tóxicas que aprisionam suas vítimas num círculo de dependência, indulgência e um tanto de masoquismo. O tema se presta a projetos de baixo custo como esses, que se bastam somente com o trabalho dos atores, um pequeno cenário e muita ação verbal. Por coincidência, os personagens centrais se chamam Paula e Paulo.

Os Sapos, baseado na peça homônima de Renata Mizrahi, lança mão do motivo da visita de uma pessoa que irá trazer à tona os conflitos dos visitados. Paula (Thalita Carauta) chega à casa de serra onde está Marcelo, seu ex-colega de escola, vivendo com Luciana. Um aparente mal-entendido cria um ruído na chegada, que vai se agravar com o aparecimento de outro casal vizinho.

Recém-separada do seu companheiro, Paula vem em busca de espairecer, mas sua presença vai afetar a todos. No curso de um dia e uma noite, as três mulheres vão se descobrir mutuamente e constatar que os dois casais vivem um inferno disfarçado em simulacro de felicidade. Os papéis dos homens, como de praxe ultimamente, são os mais desprezíveis num filme dominado pela perspectiva feminina.

No entanto, resta saber o que falará mais forte: se o desejo de libertação ou o apelo da submissão. Expulsa-se o sapo do banheiro ou engolem-se tantos sapos quantos forem necessários? A resposta virá após 76 minutos de ditos e não ditos, explosões e silêncios, desabafos e asfixia emocional. O tratamento do assunto é bem limitado, com personagens apenas esboçados e mudanças de conduta muito súbitas, mas as três atrizes protagonistas (Thalita, Karina Ramil e Verônica Reis) insuflam alguma verdade na situação.

>> Os Sapos está nos cinemas.

O mesmo não posso dizer do que Gustavo Machado e Roberta Ribas fizeram a partir do monólogo A Voz que Resta, do autor russo-brasileiro Vadim Nikitin. Depois de levar a peça ao palco, Gustavo transpõe para a tela a longa jornada noite adentro de um jornalista bêbado que decide se libertar de uma paixão obsessiva gravando uma mensagem catártica para a amada. Marina é a vizinha casada de cinco andares abaixo. Conheceram-se no elevador e, desde então, Paulo está cativo de um amor sem futuro.

O gravador em cena traz à mente A Última Gravação de Krapp, mas estamos muito longe de Samuel Beckett. O que temos aqui é a entediante lamentação desse homem frustrado no amor e na profissão. Livros, discos e DVDs espalhados pelo apartamento procuram situar Paulo no universo midcult enquanto ele entorna uma garrafa de conhaque e fuma uns baseados. Com uma voz pastosa que se estende, monocórdica, da primeira à última cena, Gustavo Machado não faz justiça ao bom ator que é. Até os trechos mais interessantes do texto, em grande parte de autoderrisão do personagem, perdem o viço pelo tom fastidioso da fala.

Marina, vivida pela codiretora Roberta Ribas, é apenas uma meia presença fora de quadro e/ou de foco na memória de Paulo, em cenas de um erotismo supostamente selvagem. Para tentar fugir à imobilidade do ator no cenário do apartamento semivazio e bagunçado, foram adotadas fusões e câmera instável em chave pseudo-experimental. As imagens banhadas em monocromatismo vermelho ou azul não disfarçam a precariedade da captação e tornam tudo ainda mais maçante.

Não vi a peça ao vivo, mas desconfio que muito se perdeu nessa adaptação, que mais parece um simples capricho dos envolvidos.

>> A Voz que Resta está em cinemas de São Paulo, Ribeirão Preto, Porto Alegre e Salvador.

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