Notas sobre as animações FLOW e KAYARA, A PRINCESA INCA
Arca sem Noé
Como aventura de sobrevivência, Flow (Straume) não chega a apresentar grandes novidades. Durante uma grande enchente, um gato é obrigado a superar sua aversão à água e compartilhar um barco salvador com outras espécies de animais. Mas essa animação indicada para representar a Letônia no Oscar, e já detentora dos prêmios do júri e de trilha sonora no prestigioso Festival de Annecy, cativa o público principalmente pelo tratamento que dá a seus bichos-personagens.
A começar pela ausência de falas em linguagem humana – e de qualquer criatura humana. Os animais se expressam e se comunicam com suas vozes naturais.Nenhum deles tem nome, portanto. Isso já reduz drasticamente a antropomorfização que caracteriza a imensa maioria das animações com animais. Ainda que, para a construção da narrativa, algum efeito desse tipo seja necessário. Mas o que se impõe é a ilusão de que estamos presenciando o comportamento de bichinhos reais.
Na maior parte do tempo, cada um deles age conforme sua peculiaridade mais costumeira: o gato sempre arisco e assustado, o cachorro adepto das brincadeiras, o lêmure narcisista e coletor, a garça altaneira, a capivara estável e indiferente. Eles se reúnem no barco como numa Arca de Noé sem Noé, onde precisarão aprender a conviver com as diferenças e exercitar a solidariedade. Para tanto, deverão renunciar a suas respectivas naturezas, o que fornece a Flow o seu caráter de fábula.
Mensagens à parte, o filme de Gints Zilbalodis, indicado aos Oscars de animação e de filme internacional, é um primor de execução, especialmente se considerarmos que foi inteiramente realizado na plataforma gratuita e open source Blender. Vale reparar no detalhamento realista da vegetação e da água, ou na beleza extravagante das paisagens supostamente orientais e das passagens mais oníricas que se descolam da ambientação natural.
Se o gato acaba se familiarizando um pouco demais com as águas do dilúvio, este é um pecado menor para as muitas virtudes de Flow.
>> Flow está nos cinemas.
Uma menina peruana empoderada
Esta produção do estúdio de animação peruano Tunche segue à risca os padrões de grandes produtoras como Pixar e Disney: uma heroína em vias de empoderamento desafia as normas vigentes e salva seu povo de um destino ameaçador. Kayara, a Princesa Inca (Kayara) envereda por clichês de uma cultura periférica no tempo e no espaço (o império inca), ali enxertando elementos clássicos da animação, como o porquinho da Índia que é o melhor amigo da heroína e o apelo à magia como sua aliada.
Kayara (que não tem nada de princesa, ao contrário do que afirma o título brasileiro) é uma menina que ambiciona seguir os passos rápidos do pai, um grande chaski, os velozes mensageiros incas. Mas essa distinção só é concedida aos homens, nada dispostos a abrir espaço para uma chaski mulher. A fim de realizar seu sonho, Kayara porá à prova sua agilidade e coragem. Além de uma conquista feminina então inédita, a garota ainda será decisiva para derrotar um supervilão que explora o povo e ambiciona o poder imperial.
Um Peru coloridinho e luxuriante serve de cenário para a referência a alguns traços da cultura inca, como os chaskis, as lhamas, os xamãs, os quipus (cordas trabalhadas para veicular mensagens) e a arquitetura de pedras justapostas. Pena que tudo isso esteja a serviço de uma visão padronizada de aventura infantil, ainda por cima falada em inglês na versão original. O filme tem design esmerado e imagens sugestivas, mas carece de personalidade própria e troca as pernas nas cenas de ação. Ainda assim, pode divertir plateias menos exigentes.
>> Kayara, a Princesa Inca está nos cinemas.



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