VITÓRIA
Como contada em Vitória, a história de Joana Zeferino da Paz tem ingredientes da jornada do herói – no caso, da heroína. Ela descobre uma séria ameaça coletiva, reúne provas, enfrenta o descrédito dos oponentes, encontra aliados, ajuda a anular a ameaça e sai da aventura transformada. No filme de Andrucha Waddington, inspirado no caso real, Joana é Josefina, ou Nina, imigrante nordestina, massoterapeuta residente numa famosa ladeira de Copacabana (da Misericórdia em vez de Tabajaras).
Apavorada com os tiroteios na comunidade em frente, ela compra uma câmera VHS e, da sua janela, passa a filmar a movimentação do tráfico e a violência que mora ao lado. O resto é bem conhecido da crônica policial: a real Dona Joana ganhou a parceria de um repórter (na verdade, Fábio Gusmão, do jornal Extra e autor do livro em que se baseia o filme) para driblar a corrupção da polícia e ajudar a desbaratar a quadrilha que dominava o local. Amparada pelo Programa de Proteção à Testemunha, ela saiu do Rio e adotou o codinome de Vitória.
O contraste entre a fragilidade da mulher de 80 anos e os riscos a que ela se submete é enfatizado pela performance de Fernanda Montenegro aos 93. A escolha foi criticada pelo fato de uma mulher negra estar sendo representada por uma atriz branca. Afora a impropriedade dessa crítica perante as liberdades de uma inspiração cinematográfica, Fernandona encarna à perfeição o misto de vulnerabilidade e obstinação da personagem. Vitória se apoia inteiramente nela, na sua infinita capacidade de criar gestos e posturas genuínas, bem como desconstruir a formalidade das falas e trazê-las para o coloquial mais palpável. É o contrário do que vemos, por exemplo, no menino Marcinho que, apressado, diz “Preciso ir”, em lugar do legítimo “Tenho que ir”. Nos movimentos do cotidiano de Nina é que vemos o que pode uma grande atriz, mesmo que, vez por outra, surjam pitadas de overacting. Agregar algum humor à saga dessa personagem requer um talento especial.
O filme, iniciado por Breno Silveira e retomado por Andrucha após a morte do colega, não escapa a alguns clichês, como a caracterização dos bandidos e a relação de Nina com o menino. Mas as qualidades compensam. O roteiro flui bem, a denúncia do conluio entre policiais e traficantes é condizente, e a sequência do sequestro de Nina é um primor de surpresa. Apesar do final redentor, Vitória deixa exposta a chaga da violência urbana que corta a carne do Rio de Janeiro.
>> Vitória está nos cinemas.



