LUTA DE CLASSES no streaming
O personagem central de Luta de Classes (Highest 2 Lowest) é um festejado magnata da indústria musical que não está conseguindo mais botar suas gravações na playlist de sucessos. Pode-se ver aí uma paráfrase do próprio Spike Lee, o mais bem-sucedido cineasta negro estadunidense, mas que não goza mais do prestígio que tinha no auge de sua carreira. Tanto é que desde 2018, com Infiltrado na Klan, não emplaca um filme de êxito mais amplo. Luta de Classes, também intitulado aqui Céus e Infernos, chega ao Brasil direto no streaming.
Trata-se de uma adaptação livre de Céu e Inferno, drama social de Akira Kurosawa de 1963. David King (Denzel Washington) arma um esquema para salvar sua gravadora quando recebe a notícia de que seu filho foi sequestrado. A soma pedida pelos sequestradores pode levá-lo à falência. Logo, porém, o engano se desfaz: o jovem sequestrado é o filho do seu motorista, um quase irmão de classe inferior. David hesita em pagar o resgate, já que não é a vida do seu próprio filho que está em jogo.
O dilema de David não custa muito a ser dissolvido, uma vez que o filme rapidamente abandona o impasse moral/social em troca de um thriller policial de sequestro e resgate. Essa troca, assim como outras “viradas” do roteiro, se dão de maneira um bocado leviana, com personagens mudando de ideia e tomando decisões às escondidas do espectador. Spike Lee não está muito interessado na verossimilhança, mas sim no teor de entretenimento que é capaz de proporcionar. E proporciona de fato.
O próximo parágrafo contém alguns leves spoilers.
Não importa que o empresário cool de repente se converta num intrépido combatente do crime, nem que a identidade do sequestrador pareça incompatível com o aparato usado na coleta do dinheiro do resgate. Lee joga suas cartas despreocupadamente, como se confiasse que seu público não vai exigir mais do que ele está disposto a dar. A trama serve de pretexto para o diretor citar oral ou visualmente seus ídolos negros na música e no esporte.
No fundo de tudo, para além da questão de classe dentro da lógica capitalista, está a busca de sucesso num contexto como o de Nova York, em que a criação artística não pode prescindir das corporações. Spike Lee também não poderia prescindir de Denzel Washington nesse filme. A interpretação meio maneirista do ator dá vida a um personagem cheio de arestas imprevisíveis e que acaba compensando as fragilidades do projeto.
>> Luta de Classes está na AppleTV.

