O ocaso de um poeta da música

BLUE MOON

Richard Linklater é festejado por seus filmes dialogados, como a trilogia Antes… Mas em Blue Moon ele muda a chave para o monólogo, e o resultado me pareceu enfadonho em boa parte do tempo. Ele fez duas filmagens em rápida sucessão em 2024: Nouvelle Vague em Paris e logo em seguida Blue Moon na Irlanda. São duas produções de escalas bem diferentes. A primeira, com muitos recursos e em muitas locações; a segunda, com orçamento menor e locação única no bar Sardi’s da Broadway, onde Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II chegavam para festejar a estreia gloriosa do musical Oklahoma! em março de 1943.

Talvez por alguma motivação masoquista, Lorenz Hart, até há pouco letrista habitual de Rodgers, foi para lá ensopar sua amargura no balcão do barman. Pelos 38 minutos iniciais de Blue Moon, Ethan Hawke tagarela sem parar, desfiando ironias sobre Oklahoma!, citando versos de suas próprias letras e exaltando sua suposta bissexualidade.

Não deixa de ser um ato de coragem começar um filme exibindo o cacarejo de um artista decadente, pré-bêbado e autoindulgente. Conheço gente que saiu no meio dessa sequência. Eu segurei a onda. Hart fará outros monólogos ou quase-monólogos, seja cobrando de Rodgers (Andrew Scott) a continuidade da parceria, seja comentando com o ensaísta E.B.White (Patrick Kennedy) sobre o ato de escrever, ou mesmo de volta ao bar onde um pianista sublinha com standards o patético da situação.

O compenetrado Rodgers tem suas razões para trocar de parceiro. Hart bebe demais e já deu o que tinha que dar. Até um garoto (Stephen Sondheim aos 13 anos) minimiza sua importância naquele momento. Sua tendência à acidez nas letras não combina mais com o gosto da plateia estadunidense em tempo de guerra. Abandonado até pelo seu rato de estimação, Hart tem mais de uma razão para estar um trapo. Caiu de paixão por Elizabeth Weiland (Margaret Qualley), jovem poeta e cenógrafa 20 anos mais nova que ele, e tem esperança de ser correspondido.

Blue Moon foi inspirado em cartas trocadas entre Lorenz e Elizabeth, mas tem muito de invenção do roteirista Robert Kaplow. A melhor parte do filme é justamente quando se estabelece um esboço de diálogo real entre Lorenz e Elizabeth no vestíbulo do Sardi’s. Ethan Hawke tem, então, a chance de modular suas expressões para além da enxurrada de palavras. É também quando Linklater consegue reeditar o melhor da sua famosa aptidão para o cinema de conversa e tocar as cordas da emoção.

Assim como a presença luminosa de Margaret Qualley, o tour de force do ator, em cena nos 100 minutos do filme, é admirável. Mas isso não impede que seu personagem passe pela tela como um chato.

>> Blue Moon está nas plataformas Amazon, Prime Video, Apple TV e ClaroTV.  

 

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