A vida depois do doc
julho 31st, 2011 § 4 Comentários
Em memória de Estamira Gomes de Sousa, morta aos 70 anos na última quarta-feira, publico aqui meu artigo da Filme Cultura 51 (julho de 2010), sobre as transformações na vida de algumas pessoas que protagonizaram documentários.
Dona Estamira atende ao telefone com voz entre calma e cansada. À pergunta do repórter sobre os efeitos do famoso documentário que protagonizou, não hesita em dizer: “O filme me levantou. Ainda hoje fico pensando se é verdade. O Marcos (Prado) me deu uma nova vida. Tenho ele como uma mãe, mais que um pai”.
O telefone é um dos pequenos luxos desfrutados por Estamira em sua nova casa, na divisa entre Nova Iguaçu e Campo Grande, estado do Rio de Janeiro. A casa foi construída pela produtora Zazen, de Marcos, José Padilha e James Darcy. Acometida por diabetes e problemas de tireoide, há dois anos ela deixou de frequentar o lixão de Gramacho. Mas não precisa mexer no saldo de sua recente conta bancária para pagar consultas médicas. Quando precisa, dirige-se ao consultório do clínico de Marcos, na Zona Sul do Rio.
Marcos Prado não esquece a reação de Estamira quando ele lhe propôs fazer um filme inteiro com ela. “Tarda mas não falha!”, exclamou, para depois completar: “Esperei por isso toda a minha vida”. Diagnosticada como esquizofrênica, vivendo entre um casebre tosco e os monturos do lixão, aquela mulher de aparência e voz fortes chamou a atenção do cineasta pela poesia alucinada de suas falas, performances e argumentações. A Zazen passou a lhe pagar uma mesada desde o segundo mês de filmagem. O documentário Estamira foi feito, ganhou muitos prêmios dentro e fora do Brasil. Parte da renda foi depositada na conta de Estamira, assim como a receita total da venda do livro Jardim Gramacho, ensaio fotográfico de Prado. O filme atraiu a ajuda de novos amigos através de doações e venda de camisetas. Estamira sentiu-se prestigiada. “Minha vida mudou muito”, resume ao telefone.
Nem tantos mudam tanto quanto Estamira, mas é possível afirmar que ninguém sai completamente inalterado da experiência de protagonizar um documentário. Continue lendo
Catadora de si mesma
julho 29th, 2011 § Deixe um comentário
Os documentários de Agnès Varda são ensaios de uma catadora de imagens. São poemas de fragmentos coletados aqui e ali e selecionados por uma nuvem temática. Em As Praias de Agnès, uma espécie de filme-testamento, o objeto é sua própria história, seus entes queridos, seus filmes.
Agnès tem um misto de fé e desconfiança na capacidade do cinema para reconstruir memórias. Daí o aspecto lúdico dessa rememoração. Ela usa diversos artifícios para conectar tempos distintos e manifestações artísticas diferentes. De alguma forma, tudo começa e termina com uma instalação e uma performance, formas indissociáveis no seu trabalho recente. O amor por Jacques Demy e pelo cinema responde pelas vinhetas mais carismáticas do filme. Mas, sejamos justos, há também um pouco de autoindulgência e um excesso de digressões. É preciso um certo engajamento afetivo para melhor apreciar o fluxo caprichoso de referências e autorreferências.
De qualquer forma, trata-se de um trabalho inspirador pela liberdade de uma montagem colada à expressão verbal. Nessa conversa com a plateia, não há hierarquia entre palavra e imagem.
Von Trier e o medo do caos
julho 28th, 2011 § 6 Comentários
Dois fatos externos jogaram sombras e luzes sobre Melancolia. Primeiro, a coletiva desastrada em Cannes, quando Lars Von Trier, numa fronteira ambígua entre a provocação e a confissão, se disse “um nazista” e admitiu “compreender Hitler”. O assunto foi trazido à baila a propósito de uma entrevista anterior, em que ele falou de sua “fraqueza” pela estética nazista, e do uso extensivo da música de Richard Wagner. Embora não tenha necessariamente contaminado a leitura do filme – que nada tem de nazista, mas sim corteja o romantismo alemão –, o episódio criou um campo de rejeição que favorece os desafetos do diretor.
O outro fato foi o recente atentado do atirador ultranacionalista na Noruega, um choque quase tão duro para a sociedade escandinava quanto uma colisão de planetas. Não quero atribuir a Melancolia a condição de metáfora social assumida. Antes pelo contrário, Von Trier faz questão de ressaltar o isolamento desse grupo em relação ao resto da sociedade. Não só pela localização remota da mansão, mas principalmente pela alienação com que eles enfrentam até mesmo a iminência do fim do mundo. “Isso não tem nada a ver com o povoado”, diz alguém a respeito da catástrofe que se anuncia. Ainda assim, uma leitura possível do filme é a do pavor de uma comunidade diante da perda de seus rituais e de sua segurança.
No primeiro ato, “Justine”, o medo tem uma origem doméstica, íntima, interior. Justine (Kirsten Dunst), a noiva vacilante, transforma os sintomas de depressão em atentados ao bom andamento da cerimônia de casamento. Coadjuvada pela mãe superácida (Charlotte Rampling) e pelo pai meio psicótico (John Hurt), ela contesta os rituais da pontualidade, da fidelidade e da submissão. É uma espécie de apocalipse familiar o que ela provoca com suas atitudes. Nesta metade do filme, tudo se relaciona com sua angústia e insatisfação. Desse ponto mais introvertido de uma metafísica da alma, Melancolia passa no segundo ato para uma escala cósmica, um flerte com a filosofia da ciência, em que a fragilidade não é mais de uma pessoa, mas de toda a vida na Terra.
Nomeado “Claire”, o segundo ato configura uma fenomenal mudança de escala e uma inversão de pontos de vista a respeito das duas irmãs. Claire, que parecia mais forte e integrada ao círculo das formalidades, revela-se uma mulher avassalada pelo pânico. Justine, a desequilibrada, é quem vai encarar o cataclisma com a serenidade dos que reconhecem o inevitável. Com essa polaridade ousada e vertiginosa, Von Trier cria um ensaio épico sobre o medo dos choques, da perda de estabilidade e da irrupção do caos.
Tem sido cada vez mais raro esse tipo de filme que se atreve artisticamente a ponto de provocar entusiasmo e repulsa em medidas quase iguais, dependendo de como o espectador se coloca ante as obsessões do cineasta. Em matéria de abalo cênico, Melancolia é muitíssimo mais suave que Anticristo e mesmo que a maioria dos filmes anteriores de Von Trier. No entanto, o alcance de suas sugestões é tão grande quanto o de Ondas do Destino, Dançando no Escuro, Dogville e Os Idiotas. Trata-se de examinar o ser humano numa rede de relações com o entorno em suas distintas dimensões: a família, a comunidade, o conceito de normalidade, a autopercepção dentro da mecânica do mundo e – agora pela primeira vez – a vulnerabilidade extrema da espécie humana perante os desastres da mente e do cosmos. Correlação tão ambiciosa no cinema recente só me lembro da que fez Patricio Guzmán no seu Nostalgia da Luz, vinculando estrelas e ossos, planetas e bolas de gude, memória política e astronomia.
Para quem se derreteu com o prólogo cartão-postal de Meia-noite em Paris, os primeiros minutos de Melancolia devem parecer uma viagem à estratosfera. Von Trier situa ali não só imagens-símbolo da síndrome que vai tratar, como também as referências estéticas com que vai trabalhar ao longo do filme. A base são as pinturas alemães e pré-rafaelitas, além das citações explícitas dos quadros Ophelia, de John Everett Millais, e Caçadores na Neve, de Bruegel, sem falar na fotografia ultra-estilizada do americano Gregory Crewdson e no cinema de Andrei Tarkovski. Mas o tratamento dessas imagens ecoa também a estética da publicidade, relacionada à ocupação profissional de Justine. Visto assim, o prólogo bem pode ser uma introdução ao pensamento convulsionado de Justine e à paranóia da irmã Claire.
O campo de golfe, espaço do jogo organizado e civilizado, é o teatro onde se dão as cenas mais cruciais dessa fábula contemporânea. Nela se encontram a ficção científica e o drama burguês, o intimismo profundo e o expressionismo delirante, o in e o out em suas conformações mais extremas. Talvez, como sonhava Wagner, uma tentativa da “obra de arte total”.
Canais de Manila
julho 26th, 2011 § 3 Comentários
Lola, de Brillante Mendoza, nos coloca no centro de um labirinto angustiante. A cidade é dura, caótica e violenta. O tempo da estação úmida não colabora para melhorá-la, inundando de chuva e açoitando com vento as ruas e canais de palafitas. A câmera não para quieta, como se agitada também pelo estado de emergência permanente.
O filme deveria se chamar no Brasil “Avós”, que é a tradução da expressão filipina “Lola”. Na trama, duas avós se esforçam para remediar a perda dos netos – o de uma matou o da outra e está na cadeia. Um enterro e um julgamento estão à espera de que as coisas se resolvam pela reverência devida às avós numa sociedade fortemente baseada na unidade famíliar. Como no neorrealismo italiano, que tanto inspira o estilo de Mendoza neste filme, essa história mínima se abre para mostrar o funcionamento da sociedade. E aqui encontro um motivo de admiração especial por Lola. É como o diretor usa o cenário de Manila para exprimir o modus vivendi de sua população mais pobre.
Tudo se passa entre ruelas, becos e canais aquáticos, os “esteros”, que de solução para o escoamento da produção agrícola para a cidade transformaram-se num pesadelo, fonte de doenças e enchentes. A forma de labirinto, onde o espectador nunca sabe bem onde os personagens se encontram a cada momento, remete aos canais de uma economia e uma justiça informais em que tudo se resolve à margem da lei. Tal como o dédalo geográfico, as relações interpessoais e dos indivíduos com o poder se dão por vias tortuosas, através de negociações indiretas, penhoras, tráfico de favores, burocracia infernal, superstições etc.
É bastante comovente ver como as duas avós, desconhecidas entre si e separadas por um crime, se aproximam na busca da dignidade para suas famílias. Mendoza trata isso com extrema sutileza. É como se a intrincada rede de “canais” da história desembocasse, afinal, numa pequena praça comum de humanidade.
African portraits
julho 24th, 2011 § Deixe um comentário
Diversão de domingo:
Juro que este é meu último post sobre minha recente viagem à África. Não encho mais o saco de vocês com esse assunto. Mas ainda quero compartilhar duas coisas:
1. Esta brincadeira com portraits que eu e Rosane fizemos de gente nas ruas. Dura pouco mais de 2 minutos e tem música do grande Dollar Brand, Ibrahim Abdullah, um dos meus músicos africanos preferidos:
2. Nossos álbuns com seleções de fotos da África do Sul, Suazilândia, Moçambique e Cabo Verde. Em cada um você pode acionar a “apresentação de slides” para curtir melhor. Estão aqui no Picasa.
Banco Central – a verdade ainda pode vir à tela
julho 21st, 2011 § 1 Comentário
Chega aos cinemas amanhã (sexta) um novo candidato a blockbuster brasileiro. Assalto a Banco Central usa elenco multiestelar, trilha sonora excessiva e boa fotografia para macaquear os thrillers de assalto americanos diluídos no refrigerante da comédia. O filme de Marcos Paulo se passa em dois tempos narrados alternadamente. De um lado, a arregimentação da quadrilha, o surgimento de conflitos internos, a escavação do túnel e a realização do maior roubo (e não assalto) bancário da história do país. De outro, a investigação posterior, a cargo de um delegado e sua assistente lésbica, culminando com a captura de parte do bando.
Uma combinação de fatos apurados e lances inventados ou deduzidos tenta extrair os aspectos, digamos, hollywoodianos da trama que abalou o notíciário policial em agosto de 2005. Do roubo se descobriu quase tudo, mas os detalhes reais da investigação permanecem desconhecidos da maioria dos mortais. Uma mulher, no entanto, presenciou grande parte da “Operação Toupeira”, conduzida pelo delegado Antonio Celso dos Santos. E ela tinha uma câmera.
Logo em seguida ao crime, a repórter e documentarista Luciana Burlamaqui foi convidada para dirigir um documentário sobre as investigações. Durante dois anos, ela acompanhou a dupla formada por Antonio Celso e outro agente federal, gravando com exclusividade – e em regime top secret – o trabalho dos policiais em 40 viagens por 10 estados brasileiros. Essa história ainda está por ser mostrada.
Luciana até hoje negocia com duas produtoras a forma de finalização do material. Ela quer montar um seriado de TV com o título provisório de Diário de uma Investigação – Os bastidores do maior roubo a banco da história do Brasil. Luciana prefere não se estender sobre os pormenores de um assunto que se tornou delicado para muita gente. Mas não esconde suas intenções:
- Todo o meu interesse nessa história é pelo fato de poder contar como é possível combater o crime no Brasil sem violência e sim com inteligência. Fui testemunha do método investigativo adotado pelo delegado e chefe da investigação Antonio Celso dos Santos, e por isso decidi apostar nessa história e me entregar fortemente ao projeto, pois achava que ali havia algo importante para se mostrar com mais profundidade.
Luciana escreveu um diário simultaneamente às filmagens. Quer publicar esses textos combinados com suas reflexões sobre a violência no Brasil nos últimos 20 anos. Desde a década de 1990 ela se especializou na cobertura desse tema. Aos 20 anos, já atuava como repórter investigativa para o livro Rota 66, de Caco Barcellos. No ano passado, lançou o excepcional documentário Entre a Luz e a Sombra, sobre a convivência de uma atriz e ativista com dois artistas presidiários ao longo de sete anos. Ao documentar a investigação do roubo ao BC, Luciana diz ter adotado o mesmo tipo de movimento dramático que aproxima a narrativa da ficção. Garante, porém, que nada foi dramatizado:
- Tudo é absolutamente real, gravado em tempo real. Segui diariamente uma dupla de policiais e registrei tudo o que encontravam pela frente, sem previsão do que ia acontecer. Foi um trabalho fascinante o de conhecer o submundo da criminalidade brasileira pelo ponto de vista de uma investigação policial, já que sempre documentei mais o lado dos acusados – e ter certeza de que é possível combater o crime sem violência. Esta é uma história muito importante para o Brasil conhecer.
Esperamos que sim, Luciana. O documentário brasileiro não pode ficar sem esse capítulo.
>>> Leia entrevista de Luciana Burlamaqui à Folha de S. Paulo após a publicação deste post.
Saraivada de clássicos
julho 19th, 2011 § 8 Comentários
Uma saraivada de clássicos do documentário brasileiro vai ser disparada em breve, segundo um dos últimos projetos conduzidos por Gustavo Dahl dentro do Centro Técnico Audiovisual. Órgão subordinado ao Ministério da Cultura, o CTAv vai lançar 37 DVDs, sendo três duplos, com filmes realizados no século passado por Humberto Mauro, Alberto Cavalcanti, Jurandyr Noronha, Adhemar Gonzaga, Arne Sucksdorff, Vladimir Carvalho, George Jonas, Nelson Pereira dos Santos e muitos mais.
Serão duas coleções. A primeira inclui pérolas como Um Homem e o Cinema, em que Cavalcanti faz um balanço de sua própria obra, e a pouco vista série Mundo à Parte, realizada pelo sueco Arne Sucksdorff sobre o cotidiano do pantanal mato-grossense e as pesquisas etnográficas ali desenvolvidas por ele e sua segunda esposa, a cuiabana Maria Graça, nos anos 1970. Também está lá a série A Linguagem do Cinema, de Geraldo Sarno, que disseca o estilo de vários realizadores brasileiros. De Joel Pizzini, o mascote da fornada, sairão uma coletânea de curtas intitulada “Cinema de Poesia” e o longa Anabazys, feito com Paloma Rocha em torno de A Idade da Terra de Glauber. Vladimir Carvalho terá editados seis curtas de sua longa carreira, enquanto outro disco vai trazer o retrato que Marcos de Souza Mendes produziu do etnógrafo Heinz Förthmann.
Os discos serão recheados de muitos extras, compostos de curtas, entrevistas e depoimentos. O doc-antologia Panorama do Cinema Brasileiro, de 1970, vai sair com um bônus que muito me orgulha: o perfil que fiz do seu diretor para o Canal Brasil, Jurandyr Noronha – Tesouros Quase Perdidos.
A segunda coleção, patrocinada pela Petrobras, vai reunir nada menos que 110 curtas e médias produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE) e posteriormente o Instituto Nacional de Cinema (INC). Cerca de metade deles trazem a assinatura de Humberto Mauro, cujo trabalho no INCE definiu um padrão da época para tratar de cultura, ciência e História no cinema educativo. Os 20 DVDs dessa coleção foram organizados por constelações como Cidades Históricas, Música Erudita Brasileira, Humberto Mauro para Crianças, Cultura Negra, Nordeste/Semiárido: Visões, Personalidades do Cinema Brasileiro e George Jonas: Iniciação à Física, entre outras.
Em meio a curtas de enorme importância para a evolução do doc brasileiro, eu destacaria os hiperclássicos de Mauro, além de Fala Brasília, de Nelson Pereira dos Santos, Aruanda, de Linduarte Noronha, Sob o Ditame de Rude Almajesto, de Olney São Paulo, Brasília Planejamento Urbano, de Fernando Coni Campos, e Música Barroca Mineira, de Arthur Omar.
Esses discos contarão com um extra feito especialmente para a coleção: o doc Recuperando a Memória (ai, esses gerúndios…). Dirigido por Joana Nin, com supervisão de Gustavo Dahl e entrevistas feitas por Joana Tassinari, o “extrão” de 30 minutos dá conta de explicar o que foram o INCE e o INC e as condições daquela produção cinematográfica dentro do Estado. Mostra, ainda, as técnicas empregadas para resgatar um filme num acervo e prepará-lo para difusão.
Tão importante quanto preservar e restaurar os acervos fílmicos é colocá-los à disposição do público de maneira barata e prática. Espero que esse belo desfile de imagens brasileiras chegue assim a quem precisa e deve conhecê-las.
Contatos íntimos no Parque Kruger
julho 17th, 2011 § Deixe um comentário
Diversão de domingo:
Abaixo, um vídeo de 15 minutos com os melhores momentos dos meus game drives no Parque Kruger, na África do Sul, em abril último. Não chegamos a nos deparar com todos os Big Five, mas travamos contatos quase íntimos com elefantes, zebras, girafas, rinocerontes, hipopótamos, uma leoa e um fascinante e vaidoso guepardo, entre outros bichos. Todos soltos no mundo imenso do parque, 19 mil metros quadrados de liberdade e cerimoniosa convivência entre homens e feras.
Os offs em espanhol se explicam pela conversa com nossa guia, Mirca Crovo, uma argentina que vive em Johannesburg. A imagem não é nenhuma HD mas resiste bem à tela inteira.
Agora, se você quiser ver a barra pesada que é um combate dramático entre feras do Kruger, com direito a disputa encarniçada, vingança e solidariedade, fique com esse vídeo-sensação, gravado por turistas em 2007, um campeão do Youtube. É absolutamente sensacional.
1500 cineminhas
julho 15th, 2011 § 3 Comentários
A Programadora Brasil está comemorando. Chegaram a 1500 os pontos cadastrados para exibição de filmes brasileiros em DVD. Se 480 municípios brasileiros têm salas comerciais de cinema, são 800 os municípios que hoje contam com algum espaço destinado a exibições de material da Programadora. Do Amapá ao Rio Grande do Sul. O número de espectadores nas sessões chega a 380.000, sem contar cerca de 200.000 que frequentaram as exibições nos espaços SESC pelo país afora. São números que de fato merecem comemoração.
A Programadora Brasil é um sistema de distribuição criado pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura para promover exibições não comerciais de filmes brasileiros de várias épocas, gêneros e metragens, garantindo assim o contato permanente do público com a produção nacional. Busca-se também estimular a formação de acervos locais. Cineclubes, escolas, centros culturais, bibliotecas, videotecas, pontos de cultura e até igrejas e hospitais são alguns dos “clientes” da Programadora. Eles adquirem os filmes por preços módicos, levando já o direito de exibi-los sem cobrança de ingresso. Em contrapartida, devem informar ao sistema as sessões agendadas e efetivadas. Com esses dados, a PB aperfeiçoa sua estratégia e avalia seus resultados.
O catálogo conta hoje com 214 DVDs compreendendo longas-metragens ou programas de curtas. Tanto o catálogo como o modo de funcionamento do sistema e os pontos de exibição nos diversos estados podem ser consultados no site da Programadora. Estão acessíveis ainda os textos especialmente preparados por críticos para o encarte de cada DVD. Os filmes podem ser assistidos também nos locais de administração da PB: a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), no Rio.
Na semana passada, Caio Cesaro, do CTAv, me franqueou as estatísticas da Programadora, de onde tirei esses dados:
- Os filmes de ficção são os mais programados (44,5%), seguidos pelos de animação (36%), os documentários (17,4%) e os experimentais (1,7%).
- Entre as faixas de público, a predominante é a infantil, com forte participação de escolares.
- O campeão absoluto de exibições é o curta Historietas Assombradas (Para Crianças Malcriadas), de Victor Hugo Borges, incluído no DVD “Curtas infantis1”. Ele foi assistido por pouco mais de 20.000 pessoas. Os filmes que compõem as coletâneas de curtas infantis aparecem nos primeiros lugares da lista de mais vistos.
- Bicho de Sete Cabeças, A Hora da Estrela e Macunaíma são os filmes adultos mais frequentados.
- Milagre em Juazeiro, O Chamado de Deus e Os Anos JK são os documentários com maior público.
- O DIMAS, órgão da Secretaria de Cultura da Bahia, em Salvador, é o ponto de exibição mais ativo, tendo já realizado 593 sessões com materiais da Programadora. Em seguida vêm o Ponto de Exibição Audiovisual de Ipaporanga, Ceará (330 sessões) e a Fundação Cultural de Curitiba (314 sessões).
Glauber e Walter – uma herança?
julho 13th, 2011 § 3 Comentários
Glauber Rocha fez seus filmes mais importantes entre 1964 e 1969. Walter Salles fez os seus entre 1998 e 2004, ou seja, de 30 a 40 anos depois. No entanto, e apesar das profundas diferenças biográficas e de estilo, parte considerável da crítica latino-americana vê uma linha de permanência e continuidade entre as obras dos dois. Isso se manifestaria, pelo menos, no que diz respeito à escolha de personagens populares, à temática nordestina e a um tipo de fabulação passível de ser reconhecida como, mais que brasileira, continental.
Essa aproximação de identidades, tão útil para se entender a construção de uma imagem do cinema brasileiro moderno e contemporâneo, é estudada em profundidade por Eliska Altmann no livro O Brasil Imaginado na América Latina – a crítica de filmes de Glauber Rocha e Walter Salles (Contra Capa/Faperj, 2010). O foco é a recepção crítica dos dois realizadores em países latino-americanos. Com mais peso em Cuba e Argentina para Glauber, e no México para Walter.
Ao longo do livro, Eliska destaca trechos de críticas que denotam a percepção de Glauber ora como “gênio”, capaz de retratar o Brasil para além das facilidades da alegoria e do naturalismo, ora como epíteto de um nacionalismo algo tacanho e veiculador de um exotismo para exportação. De qualquer forma, em sua “sociologia da crítica”, a autora encontra um movimento de reciprocidade: Glauber teria sido de certa forma uma construção da crítica, assim como também teria forjado, com seu discurso de autorrepresentação altamente influente, um cânone para a crítica latino-americana dos anos 1960. Um cânone baseado nas propostas do Cinema Novo e que continuaria a prevalecer nos anos 90 e 2000.
Se Glauber era o protótipo do autor, cuja biografia se colava à obra, e cujas características pessoais (barroco, por exemplo) se identificavam com a realidade do país, Walter Salles é visto como um cineasta pessoalmente à parte do seu cinema e mais associado a um certo “internacional-popular”, em lugar do “nacional-popular” dos anos 60. Mas enquanto a crítica brasileira usa essa diferença para rejeitar a ideia de uma continuidade entre os dois diretores, a parte mais visível da crítica latino-americana vê a continuidade apesar disso. E vai apontar, de Terra em Transe a Diários de Motocicleta, um viés de pan-latino-americanismo revolucionário que evocaria José Martí, Bolívar e Che Guevara.
Eliska analisa a visão dos críticos latinos a respeito de espaço, tempo, povo e outras categorias nos filmes de Glauber e Walter. Lança mão de teorias de André Bazin, Michel Foucault, Hannah Arendt, Octavio Ianni e outros para embasar seu método. Identifica contradições, faz paralelos, extrai sentidos comuns ou discordantes. Coloca-se, principalmente, uma série de perguntas sobre a crítica como “empreendimento canônico” e as mudanças de atitude crítica que poderiam determinar as eventuais diferenças no tratamento concedido a Glauber e Walter nos seus respectivos tempos. A partir do exame dos textos alheios, Eliska vai enveredando para suas próprias conclusões, que envolvem tanto o cinema como a crítica.
De todas essas conclusões, a única que me pareceu frágil foi a do último capítulo, em que Eliska enfoca as dificuldades do público médio para apreender o cinema de Glauber. Num desdobramento desse raciocínio, ela acaba por aproximar os dois cineastas na busca de um certo “bom gosto culto”. Minha impressão é de que a linguagem cifrada e barroca de Glauber não buscava exatamente um bom gosto, mas uma expressão de força. Essa distância entre o gesto épico de Glauber e o engenho humanista de Walter é, a meu ver, mais que um denominador comum, um dado de complexidade nessa dialética que o livro explora tão bem.
As novas-pobres
julho 11th, 2011 § Deixe um comentário
Começa amanhã (terça) na Caixa Cultural-RJ o Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino. Entre as atrações, novos filmes de Barbara Kopple, Paula Gaitán, Beth Formaggini e Nina Galanternik, uma homenagem a Helena Solberg e uma oficina para estudantes do audiovisual sobre empoderamento da mulher. Veja detalhes e programação no site do festival. Na sessão de abertura, hoje (segunda) à noite, um belíssimo documentário que segue a tradição do clássico Grey Gardens, vem da Dinamarca mas se passa em Portugal e tem ecos do Brasil.
Mette Beckmann foi concebida no Brasil pelos pais dinamarqueses que no início do século passado tocavam obras no Mato Grosso. Morou até os três anos no Rio antes de se mudar para a França. Sua filha, Anne Mette, cresceu como princesa em Paris e depois se instalou com a família em Portugal. Foi criada para herdar, não para trabalhar. O problema é que a fortuna da família se esvaiu na imprevidência e nada sobrou da herança. As duas vivem hoje num apartamento em Cascais, sobrevivendo de uma pequena pensão do governo dinamarquês, contando trocados para comprar papel sanitário e lamentando pela boa vida que ficou para trás.
A Boa Vida (Det Gode Liv) se conecta imediatamente a Grey Gardens, de Albert e David Maysles, o filme que retratou a miséria de Edith e Eddie Beale. A simetria é quase perfeita: as idades da mãe e da filha, a decadência financeira, a relação de amor e ódio entre as duas. Mas há também diferenças fundamentais: Anne Mette e sua mãe octogenária têm mais relações sociais – ao menos para pedir empréstimos e comprar fiado – e uma consciência mais nítida de sua situação, em lugar do quase permanente delírio das Beale. Sintomaticamente, Anne diz logo no início do filme: “Vivíamos bem, mas não éramos ricas como os Kennedy ou os Onassis”.
A diretora Eva Mulvad filmou as Beckman durante três anos, atingindo um alto grau de intimidade e obtendo registros preciosos do cotidiano da dupla: de uma passagem pela loja de penhores a uma entrevista de emprego, passando por consultas médicas, uma visita à mansão onde viveram em Lisboa e diálogos duros movidos a ressentimentos familiares. O fato de estarem em Portugal, usando quase sempre a língua dinamarquesa, aumenta a impressão de alienação e desenraizamento em torno delas. Uma das melhores sequências se relaciona com o destino a ser dado às cinzas do pai e marido, morto recentemente.
Junto com uma certa perda do princípio de realidade, que vem dos tempos de riqueza despreocupada, as Beckman têm também uma dolorosa percepção do que perderam. Ora culpam-se uma à outra, ora “os comunistas” que lhes teriam “roubado tudo” após a Revolução dos Cravos. Sem qualquer acanhamento, elas expõem em detalhes a precariedade de sua condição, enquanto imagens de velhos filmes domésticos fazem o contraponto com o antigo fausto. A trilha sonora acentua o tom melancólico, embora sejam mais de queixa e raiva as manifestações da falante Anne.
Não que haja no filme uma intenção de metaforizar o caso, mas a crônica dessas “novas-pobres” acaba ecoando também a crise por que passa a Europa, especialmente Portugal. Nas contas do apertadíssimo orçamento das Beckmann, elas ainda convertem euros em coroas dinamarquesas. Talvez um pouco para sentir-se como nos tempos de majestade burguesa e fugir às evidências de um mundo em deterioração.
>>> A Boa Vida passa em sessão aberta ao público amanhã (terça), às 16h.
Um filme de rock?
julho 9th, 2011 § 2 Comentários
Um filme sobre rock?! É o que muitos perguntam, assustados, ao ver o nome de Vladimir Carvalho associado a seu novo longa, Rock Brasília, que estreia nacionalmente hoje no Festival de Paulínia. Para Vladimir, no entanto, isso não representa uma novidade absoluta. Um dos filmes que mais o impressionaram nos anos jovens foi Sementes de Violência, de Richard Brooks, que praticamente lançou o rock ‘n roll no cinema. Em sua casa, quem lançou o rock foi o irmão Walter, que participava de concursos de roqueiros. “Nos meus filmes, volta e meia tem rock”, diz ele, citando cenas de O País de São Saruê, Conterrâneos Velhos de Guerra e Barra 68.
Mas será mesmo Rock Brasília um filme sobre rock no sentido que se espera do gênero, com ritmo veloz, som em alto volume e imagens de rebeldia? Não é bem assim. Rock Brasília é, isso sim, um filme de Vladimir Carvalho. Um filme sobre como as pessoas se lembram das coisas e são capazes de contá-las cara a cara com o diretor. Na verdade, mais do que sobre rock, este é um filme sobre Brasília. Conclui uma trilogia de longas sobre momentos históricos da capital: a construção, evocada em Conterrâneos Velhos de Guerra; os assédios da ditadura, expostos em Barra 68; e a manifestação talvez mais frutuosa da cultura brasiliense, que foi o rock surgido ali entre o fim dos anos 1970 e o princípio dos 80, quando chegou a haver quase duzentas bandas na cidade.
Vladimir percebeu na época a importância do que rolava nas superquadras de classe média, especialmente naquela chamada Colina. Estimulou alunos e colegas da ABD a registrarem os primeiros shows das bandas Aborto Elétrico, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial e Detrito Federal. Não satisfeito, saiu ele mesmo para fazer entrevistas e filmar eventos como o célebre show do Legião em 1988, que terminou em confusão com muitos feridos e em ódio de parte do público pelo grupo. Esse material, guardado desde então, é a base documental de Rock Brasília.
Através de entrevistas e cenas de arquivo, além de uma sequência encenada para recuperar a atmosfera romântica dos acampamentos à beira do Lago Paranoá, o filme conta uma história de sonhos e obstáculos. Uma “epicrônica”, como Vladimir prefere chamar. Durante a fase de montagem, ele se abria aos eflúvios do livro A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler, que analisa a criação de histórias a partir de estruturas míticas. Assim, a jornada dos heróis roqueiros foi montada com base nos desafios à ordem estabelecida, confrontos com a polícia, catalisação de insatisfações políticas, rachas internos, conflitos de garotos que se tornaram homens em plena exposição da mídia. Nesse percurso, tiveram mentores e guardiões, sendo também assombrados pela morte prematura do líder maior, Renato Russo.
Russo, que Vladimir considera “o maior poeta do rock brasileiro”, é o eixo individual mais importante na narrativa de Rock Brasília, mas divide o tempo de tela com integrantes da Legião, Capital e Plebe, bem como respectivos familiares. No fundo, é uma história de famílias o que ali se conta. Em sua maioria filhos de professores, diplomatas e altos servidores públicos, os roqueiros saídos de Brasília tinham um acesso privilegiado à cultura estrangeira – e as influências de Bob Dylan, do Police e do movimento punk ficam patentes. Tinham, por outro lado, a pecha de “filhinhos de papai” para desmentir com atitudes e letras de música. A última cena do filme, puxando bem para o lado emocional, completa o sentido familiar dessa saga.
Para ser um legítimo filme de rock, Rock Brasília precisaria ter mais música e menos falas. Precisaria ter capas de disco fazendo piruetas na tela, fãs se descabelando e uma certa exaltação das emoções em jogo. Mas aí talvez não fosse um filme de Vladimir Carvalho. Não há um interesse específico em celebrar o êxito das bandas. Os relatos da formação, da dissolução e de uma ressurreição superam a crônica dos anos de maior sucesso. Isso fica para outro tipo de filme ou programas de TV. Vladimir, como sempre, sai atrás das histórias humanas que rebatem na política. Sai atrás das memórias que ficam depois que a poeira baixa e a reflexão substitui a dor e a euforia.
Suíte de ruínas
julho 5th, 2011 § 6 Comentários
Um curta cearense está chamando atenção nos festivais por onde passa. Já venceu dois: o de Jericoacoara e o prêmio do público no Festival Art Déco de Cinema, em São Paulo. Chama-se Mato Alto – Pedra por Pedra, e poderia ser um documentário bastante convencional sobre o assunto escolhido: um complexo de arquitetura visionária construído no sertão cearense na primeira metade do século passado.
Mas de convencional é que o filme do iniciante Arthur Leite, de 19 anos, feito para o projeto Revelando os Brasis, não tem nada. Arthur preferiu contar essa estranha história mais pelos ecos que pelos fatos. Sem linearidade nem preocupação explicativa, o filme emenda falas, sussurros, preces, ruídos e silêncios numa pequena suíte sobre as ruínas de um tempo e de uma saga familiar. O perfil de José Honorato, o construtor do complexo (formado por um casarão muito comprido, um poço gigantesco, um tanque e uma capela suspensa) nos chega em fragmentos tênues e contraditórios. O único sobrevivente dos muitos filhos e sua mulher exumam trapos de memória que dão conta de um homem empreendedor e competente, mas também patriarcal e obcecado, que não poupou a saúde da família para colocar de pé o seu sonho.
Mato Alto tem imagens e edição sonora de grande beleza a serviço de uma estrutura ousada, disposta a mais fazer sentir que explicar. Uma cena em especial, a árdua subida do velho Egídio ao santuário, ajudado pelo próprio diretor, tem, guardadas as proporções, grandeza similar à romaria ao Monte Santo em Deus e o Diabo na Terra do Sol. A forma de mostrar os interiores do casarão me lembrou uma sequência de O País de São Saruê, razão pela qual fiz questão de mostrar o curta a Vladimir Carvalho. “Um filme sobre fantasmas”, como disse Zeca Ferreira, que me trouxe o DVD do Ceará. Fantasmas de uma medievalidade que teima em deixar vestígios nos rincões do Nordeste brasileiro.
Torço para que Mato Alto chegue logo a um mostra no Rio ou, que seja, à internet.
Fotoclipes sul-africanos
julho 3rd, 2011 § Deixe um comentário
Diversão de domingo:
Duas brincadeirinhas com fotos que eu e Rosane tiramos na África do Sul. Algumas imagens são frames de vídeo. Tudo vale mais pelos lugares… e pela música.
Então veja em tela inteira e aumente o som.











