Por um punhado de pesos

Em ritmo de road-doc, Fernando Solanas percorre províncias longínquas do noroeste argentino para denunciar o neocolonialismo das mineradoras estrangeiras neste Tierra Sublevada: 1. Oro Impuro. O filme, que será reprisado em duas sessões na próxima terça-feira, na mostra do Instituto Moreira Salles (Rio), é apresentado como quinto capítulo de uma grande investigação político-econômica do país, seguindo-se a Memória del Saqueo, La Dignidad de los Nadies, Argentina Latente e La Última Estación.  

Para quem conhece bem a obra documental de Solanas, Oro Impuro não traz grandes novidades além de um ritmo mais fluido e paisagens impressionantes. De resto, é a mesma maneira franca e engajada de lidar com assuntos que dizem respeito a suas posições dentro da agenda política argentina. Solanas assinala focos de corrupção e desmandos governamentais, ao mesmo tempo em que louva a ação dos que resistem nas organizações populares.

Desde que Menem entregou o subsolo argentino às concessões para mineração a céu aberto, o discurso do progresso e do enriquecimento vem servindo para encobrir a exploração multinacional a preços vis e a contaminação do meio-ambiente. Solanas visita localidades abandonadas, amostras de deterioração do sistema ecológico, grupos de professores e pequenos profissionais liberais envolvidos na luta contra o saque e a contaminação. Esmiuça um incrível conluio entre governantes, empresários e até universidades para minimizar os efeitos danosos daquele tipo de mineração em troca de bons punhados de pesos.

Não há espaço para as tais “razões dos dois lados”. Solanas é um documentarista com partido (em ambos os sentidos). Autoritário, corta a palavra do inimigo quando bem entende. Narra a História e a atualidade conforme seu ponto-de-vista, e o faz claramente, dramatizando aqui e ali sua presença como engenheiro de sua própria opinião. A mise-en-scène que às vezes percebemos, especialmente no contato afetuoso com os ativistas ambientais, deixa patente que o diretor está, mais que flagrando coisas, construindo um arrazoado que soe sintético e efetivo. São recursos do doc político, que Solanas maneja com rara sobriedade e grande sinceridade.

O segundo capítulo de Tierra Sublevada será Oro Negro, sobre a exploração de petróleo.

2 comentários sobre “Por um punhado de pesos

  1. Carlinhos, é uma pena que no Brasil atual não exista nenhum cineasta engajado politicamente como o Solanas. Hoje se retiram metais nobres do Brasil para o exterior, sem ninguém comentar. A Exploração do nosso petróleo não é mais só da Petrobras. O Metro Rio é do Banco Opportunity. Grande parte do nosso território está entregue a grupos multinacionais em grande fazendas espalhadas em todo o nosso território. Ninguém documenta nada disto. Talvez seja difícil conseguir financiamento para estes temas. Viva o Solanas.

    • É isso aí, Julio. O documentarismo político brasileiro hoje é voltado para o passado ou para conceitos mais ligados à antropologia. Tudo depende dos editais, em sua maioria públicos, e, além disso, perdeu-se a veia do documentário investigativo. É uma pena. Há poucos exemplos como o poderoso “Nas Terras do Bem-Virá”, de Alexandre Rampazzo.

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