Uma Noite em discussão

Foto: Wilson Santos/JB

Tenho visto dois tipos de reação entre as pessoas que saem de Uma Noite em 67. De um lado tem aqueles, geralmente mais maduros, que comentam, maravilhados, os eventos do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Ou repetem, divertidos, os comentários colhidos por Ricardo Calil e Renato Terra juntos aos finalistas de então – Roberto Carlos, Gil, Caetano, Chico, Edu Lobo, Sérgio Ricardo, MPB-4 – e a outros envolvidos na organização e no júri do festival.

De outro lado, tem aqueles – não necessariamente mais jovens – que acham tudo muito simpático mas fazem restrições à simplicidade, supostamente excessiva, do filme. Afinal, o doc nada mais faz que justapor depoimentos atuais a clipes de apresentações e entrevistas daquela noite muito especial. Não há nada além desses dois materiais. Aparentemente, nenhuma elaboração que “enobreça” o documentário.

Fico pensando nesses dois tipos de opinião. Os primeiros não se importam com as razões dos segundos. Estes, por sua vez, não se contentam ou não se comovem com as razões dos primeiros. Como gosta de repetir meu amigo Luiz Fernando Gallego, “pãos ou pães é questão de opiniães”. Mas será que podemos ir um pouco além das meras opiniões?

A simplicidade em Uma Noite em 67 é fruto de escolhas bem definidas. Terra e Calil não saíram atrás de depoimentos de especialistas para interpretarem a batalha cultural que atravessava a música brasileira naquele momento de obscurecimento da Bossa Nova e eclosão do Tropicalismo. Nem de analistas que comentassem o cenário político que fomentava a ansiedade e a catarse de artistas e plateia através da música. Seria óbvio demais. Tudo ficou a cargo de quem participou diretamente do evento. E eles cobrem todos esses aspectos em falas esclarecedoras, engraçadas ou deliciosamente dissimuladoras – como Gil desconversando sobre sua “chapada” na noite decisiva. São muitos os detalhes inéditos, quase 40 anos depois.

É muito criterioso também o uso das filmagens da Record, números inteiros alternando-se com as impagáveis entrevistas de Randal Juliano e Cidinha Campos com os astros da noite. Não existe aqui a tentação de “recriar” o acontecimento com malabarismos de montagem, até porque a edição original do programa primava pela agilidade, especialmente nas apresentações musicais. O que temos, portanto, é o respeito à integralidade do material e a inserção de depoimentos que de fato iluminam o que se passava no palco e nos bastidores.

A contenção nesse filme é uma virtude, não uma limitação. Por ser assim, linear na aparência mas preciso no resultado, é que ele nos recoloca no clima daquele festival  que representou um embate entre o velho e o novo perante uma plateia ávida por se manifestar e dizer-se viva.

Um programa de TV? Um ringue de luta? Uma festinha doméstica de fim de ano? Ou um microcosmo da cultura em transformação?  O festival foi tudo isso e muito mais. Um Noite em 67 nos abre uma janela no tempo e mostra o que foi feito de seus protagonistas. Um bom filme, mesmo para quem não viveu as emoções na época mas certamente acompanha suas repercussões até hoje.

Bem, essa, no fundo, é só a minha opinião.

10 comentários sobre “Uma Noite em discussão

  1. Pingback: É Tudo Verdade: Fuga | carmattos

  2. Meu clone N°1:
    Claro que sua opinião esta acima de muitas meras “opiniÃes”. Mas tentando ir além da mera opinião – como vc propôs – e já que fui gentilmente citado (ou provocado?), insisto que o doc com seu caráter de neutralidade informativa e formato “standard” de tantos outros docs atuais, algo preguiçoso (ainda que bem editado) acaba até mesmo informando pouco, por exemplo, aos que não viveram a época (os que a viveram caem nas tramas da nostalgia emotiva que é mesmo irrecusável).
    Diferentemente do que vc diz, os entrevistados não cobrem TODOS os aspectos que o filme apenas tangencia (a plateia indo de empolgada a irada nas vaias; o berço público do tropicalismo de Gil, Caetano, Mutantes, Rogério Duprat) – e muito menos aborda outros aspectos que ficaram totalmente excluídos mas que fizeram parte importante daquele festival: ao se deter apenas na noite de premiação sem nem mencionar as três anteriores, omite que Roberto Carlos também defendeu um outro (maravilhoso, ainda que não-classificado para a “final”) samba (“Anoiteceu”, de Francis Hime e Vinicius) que em 2009 foi regravado até por uma cantora lírica estrangeira em alta na praia dela; e que o fato do estilo Bossa Nova estar em período de recesso fez com que, em uma primeira audição, ninguém se ligasse em “Eu e a Brisa”, de Johnny Alf, também não-classificada mas que foi se transformando em cult logo depois, com muitas audições nas rádios.
    Ou seja, as 4 músicas vencedoras eram todas muito significativas, na época e até hoje, e tanto mais porque tiveram em seu encalço essas outras e não só (como as apenas premiadas como “melhor letra”, “A Estrada e o Violeiro” com Sidney Miller e Nara Leão, e, como melhor intérprete, “O Cantador” de Dory Caymmi e Nelson Motta, com Elis). Nem cobraria o fato de que Martinho José Ferreira (mais tarde Martinho da Vila) foi ignorado com um partido-alto (“Menina Moça”) que não fazia parte do “bom gosto” da época; que São Pixinguinha teve uma parceria com Hermino Bello Carvalho (“Isso não se Faz”) passando em branco; que Geraldo Vandré – entre “Disparada” e “Caminhando” (que viria bombar no ano seguinte) – não funcionou quando tentou trocar o personagem vaqueiro de “Disparada” por um motorista de caminhão em arranjo (vaiado) com buzinas para sua “De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando”; que Hebe Camargo também foi vaiadíssima com uma canção romântica em estilo antiquado para o momento e só não sofreu o mesmo que Sérgio Ricardo porque também não foi votada para a final; e que, last but not least, Erasmo Carlos defendeu uma “Capoeirada” composta POR ELE MESMO – o que me parece bem mais do que mera coincidência com os sambas defendidos pelo Roberto…
    Tudo bem que tanat coisa seria para um livro enrome e não para um filme de hora e meia, mas aquela UMA única noite em ’67 é muto pouco mesmo para o doc, já que era consequência das outras três semifinais. Tem muito Randal Juliano e Cidinha para pouca reflexão e revisão atual de um evento de massa com tamanha repercussão no período. Um olhar de hoje para o passado manteria mesmo a mitologia daquele festival em si mesmo como tão importante? Ou foi mesmo um mui bem-sucedido “programa de TV”? Ou ambos? Ou nenhuma das opções acima? Pães ou pães…

    • Querido amigo e sósia, ainda bem que você mesmo reconhece a impropriedade de suas cobranças em relação ao filme. O fundamental na roteirização de um doc é o recorte, o dispositivo que se cria para que o filme funcione dentro de suas limitações de obra audiovisual limitada no tempo. O recorte escolhido foi a noite, com sua dramaticidade própria, comentada por quem a viveu como protagonista. Nessa escolha, o filme é impecável. Cobrar o resto do festival, a meu ver, não faz sentido. Taí mais alguns “pães”.

  3. Carlos,

    A impressão que tenho é que estão levando a ferro e fogo a máxima de Maiakovski de que só há arte revolucionária quando a forma também é revolucionária.
    Tzvetan Todorov em “A Literatura em Perigo” ( logo ele que foi um grande semiólogo) aborda o mal que o ensino da Literatura está cometendo hoje na França ( e extrapolo eu, para outros rincões, como o Brasil) ao privilegiar as análises estruturais e formais em detrimento do que poderíamos, de uma forma mais simplificada chamarmos de o conteúdo.

    Em relação ao Cinema de modo geral e aos documentários em particular podemos dizer o que o mesmo está acontecendo. Parece que só há olhos para grandes experimentos formais. Quando um grande documentário como este de Ricardo Calil e Renato Terra, “Uma Noite em 67” se apoia numa estrutura imagens de arquivo&entrevistas contemporâneas, há aqueles que torcem o nariz pois estariam diante de algo previsível. Nada mais falso. Vale lembrar aqui a máxima de Samuel Fuller: Cinema é emoção! E creio que isto também vale para documentários. “Uma noite em 67” nos comove como o diabo. Ou pelo menos a mim isto aconteceu. Tocado por ele, o abordei num post no meu Blog bastante pessoal http://pelaluzdosmeusolhos.blogspot.com/
    DOMINGO, 1 DE AGOSTO DE 2010
    Uma Noite em 67, Um Disco Voador Identificado que Passou em Minha Vida.

    Quando tiver um tempinho leia o que escrevi. Espero que goste assim como eu gostei bastante de escrever. Neste caso recomende aos amigos.
    O mesmo digo para seus leitores fiéis, dentre os quais me incluo.
    Abraços,
    Nelson

    • Olá, Nelson, pois é, certos valores precisam ser preservados em vez de diluídos. Seus dois posts sobre o filme e as repercussões dos festivais na sua vida são fluviais e muito sinceros. Fica aqui a recomendação.

  4. “Por ser assim, linear na aparência mas preciso no resultado, é que ele nos recoloca no clima daquele festival que representou um embate entre o velho e o novo perante uma plateia ávida por se manifestar e dizer-se viva.”

    Bingo! Eu era criança na época. Só conhecia a história do festival através de fragmentos das imagens mais populares que a TV, ocasionalmente, mostra, ou em buscas no Youtube. E o documentário nos conduz diretamente à efervescência daquele momento, como se estivéssemos lá. Caramba, isso é pouco?!

  5. Amigo Carlinhos,

    Concordo plenamente com sua opinião sobre o filme “Uma Noite em 67”. Sou
    daquela turma que acompanhou, à distância, o desenrolar dos Festivais da Record. Por isso, me emociona ver a forma como tudo aquilo é agora mostrado.
    Matou-me, também, uma curiosidade, o documentário recentemente lançado sobre os “Dzi Croquetes”. Jamais assisti a qualquer dos seus shows,
    embora acompanhasse, à distância, o surgimento do grupo, seu sucesso e dissolução. Vendo esses dois filmes, senti-me de certa forma vivenciando a efervescência cultural de uma importante fase da minha existência.
    Grande abraço,
    Reinaldo

    • Salve, Reinaldo! Eu via os festivais pela TV num colégio interno, ainda garoto, sem compreender direito os sentidos mas me deixando contagiar pelas canções e as disputas. Sobre os Dzi Corquetes, faço minhas as suas palavras. Nunca vi ao vivo e, por isso, o filme para mim foi uma revelação.
      Um super-abraço, Carlinhos

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