Catadora de si mesma

Os documentários de Agnès Varda são ensaios de uma catadora de imagens. São poemas de fragmentos coletados aqui e ali e selecionados por uma nuvem temática. Em As Praias de Agnès, uma espécie de filme-testamento, o objeto é sua própria história, seus entes queridos, seus filmes.

Agnès tem um misto de fé e desconfiança na capacidade do cinema para reconstruir memórias. Daí o aspecto lúdico dessa rememoração. Ela usa diversos artifícios para conectar tempos distintos e manifestações artísticas diferentes. De alguma forma, tudo começa e termina com uma instalação e uma performance, formas indissociáveis no seu trabalho recente. O amor por Jacques Demy e pelo cinema responde pelas vinhetas mais carismáticas do filme. Mas, sejamos justos, há também um pouco de autoindulgência e um excesso de digressões. É preciso um certo engajamento afetivo para melhor apreciar o fluxo caprichoso de referências e autorreferências.

De qualquer forma, trata-se de um trabalho inspirador pela liberdade de uma montagem colada à expressão verbal. Nessa conversa com a plateia, não há hierarquia entre palavra e imagem.

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