Uma sessão de cinema na Índia

Aí vai mais um bom pedaço de memória da minha viagem à Índia em 2005. Uma sessão no popularíssimo e folclórico cinema Raj Mandir, na cidade de Jaipur, norte do país. O vídeo tem quase 9 minutos. Em seguida, leia alguns trechos do livro Bombaim, Cidade Máxima, referentes aos costumes dos indianos dentro das salas de cinema.

Trechos do livro Bombaim, Cidade Máxima. Enquanto o escrevia, o autor Suketu Mehta colaborava no roteiro do filme Missão Kashmir.

“Na grande maioria, os filmes comerciais híndis são musicais que contêm entre cinco e quinze sequências de canções. Os cineastas ocidentais abandonaram os musicais quando abandonaram o próprio cinema, em favor da televisão. Musicais exigem largueza, escala; não cabem em telas espremidas de dezenove polegadas. Houve outra exigência descabida que críticos e espectadores impuseram aos musicais de Hollywood: que a canção se ajustasse ao enredo. Os filmes híndis nunca obedeceram a essas diretrizes fascistas. A suspensão da descrença na Índia é imediata e generosa, e começa antes de os espectadores entrarem no cinema. É fácil suspender a descrença numa terra onde a crença é tão generalizada e vigorosa.
(…)
Os indianos levam seus filmes tão a sério quanto os italianos levam a ópera. Quando percebem que seus heróis divergem radicalmente do que deveriam fazer, os espectadores podem chegar às vias de fato. Enquanto preparamos o roteiro, lemos que em Ludhiana, depois da primeira sessão do filme Fiza, no qual o herói também faz um terrorista, a plateia ficou descontente com a maneira como seu ídolo era retratado e manifestou seu desapontamento levantando-se e depredando o cinema. Sinto agora uma imensa responsabilidade como roteirista. Construímos o filme olhando ansiosamente para o condutor de riquixá que está sentado numa das fileiras de baixo, com uma lata de gasolina.
(…)
Toma-se infinito cuidado, como dizem os jornais, para “não ferir os sentimentos de determinada comunidade”. Vinod (o produtor Vidhu Vinod Chopra) passa e repassa a questão de saber que religião as protagonistas femininas devem professar, o que pode ser ofensivo, o que pode ser bem aceito pelos espectadores. Finalmente, ele estabelece as diferenças: a senhora Khan, mulher do policial, é hindu, e Sufi, a namorada do militante, é muçulmana. As restrições sob as quais trabalhamos são peculiares ao país. Vinod não pode usar fade to black em seus filmes. Usou cinco num de seus primeiros filmes, quando saiu do Film and Television Institute of India, e a plateia começou a gritar e assoviar. Os espectadores achavam que a luz de arco voltaico estava apagando. No interior os responsáveis pela projeção cortam os fade outs dos rolos de filmes para impedir que a plateia quebre o cinema.
(…)
Nos cinemas da Índia, as plateias aprenderam a saber quando o filme vai terminar. Este senso é ajudado pelas portas que se abrem e pelas luzes que se acendem, cinco minutos antes do fim. As pessoas que têm crianças pequenas precisam sair logo, para pegar um táxi ou um riquixá. Portanto, os cinco minutos finais de qualquer filme híndi estão inevitavelmente perdidos, mesmo que a gente permaneça no cinema, porque a maioria das pessoas na frente se levanta. É por isso que os filmes terminam com uma canção, ou com uma breve reprise dos momentos mais importantes, como a vida de um moribundo passando diante dos seus olhos”.
(…)
Uma sala de cinema indiana jamais se torna uma câmara de inconsciência de massa como no Ocidente. Em primeiro lugar, não se pode mandar ninguém calar a boca. Todos falam à vontade, muitas vezes mantendo um diálogo com os personagens. Se um deus aparece na tela, as pessoas podem jogar moedas ou se prostrar nos corredores. Crianças berram; durante a execução de um número musical, um quarto da plateia pode se levantar e ir comprar lanche no saguão. Diálogo complexo não funciona, porque a maior parte do tempo a plateia não escuta. O som é tão ruim na maioria dos cinemas que, como no teatro, não pode haver sussurros num filme híndi, e a música precisa ser executada o tempo todo no volume máximo”.

2 comentários sobre “Uma sessão de cinema na Índia

  1. Olá, após assistir RA ONE e descobrir que até mesmo filmes de ficção com heróis são bombardeados com canto e dança, decidi pesquisar um pouco na internet. Fiquei pasmo ao me deparar com seu blog e descobrir que as estranhezas não estão apenas no conteúdo dos filmes, mas na população cinéfila como um todo. De acordo com sua experiência, o povo é absolutamente primitivo e ingênuo, tornando a sessão um verdadeiro martírio para a maioria dos ocidentais.
    As informações passadas por vc são tão chocantes que parecem sair de alguma sátira. Obrigado por compartilhar.

Deixe uma resposta para carmattos Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s