Graças!

Se eu fosse uma pessoa célebre, um Caetano ou um Saramago, começaria hoje mesmo uma campanha contra o “muito obrigado”. Pensando bem, essa é uma das expressões mais estapafúrdias e ultrapassadas da língua portuguesa. Ora, alguém lhe faz um favor ou lhe dá um presente e você, à guisa de agradecimento, diz que se sente obrigado a retribuir, ou que está recebendo aquilo por uma obrigação, ou seja lá que etimologia esteja por trás disso.

A explicação mais corrente para a origem do “obrigado” liga-se ao latim medieval obligatu. “Fico-lhe muito obrigado por esse favor ou presente”, ou seja, “tenho a obrigação de lhe retribuir no futuro”. É algo imposto pela lei da boa educação e da cortesia, em lugar de sugerir espontaneidade e simples reconhecimento. A expressão foi sendo encurtada até chegar ao “obrigado” ou “obrigada”. Mas quem considera esse sentido quando se dirige ao porteiro que lhe ajuda com as sacolas ou ao amigo que lhe dá uma caixa de chocolates? Fica apenas o termo vazio, automático, pomposo. Praticamente sem significado.

Invejo as línguas em que se agradece dizendo simplesmente que se está muito grato. Isso também vem do latim. Línguas latinas usam “gracias” ou “grazie”. Anglo-saxônicas aplicam o mesmo sentido: “thank”, “danke”. Ou seja, quando eles são ajudados na rua ou ganham um livro, dão graças ao outro, em vez de se sentir obrigados. A graça é um campo semântico muito mais conveniente para quem se sente agradecido.

É quixotesco, eu sei, mas de agora em diante pretendo me acostumar a dizer “graças” a quem me for útil ou amoroso. Graças a essas pessoas, nossa vida fica melhor. Sem débitos para o futuro, sem obrigação de recompensa.

6 comentários sobre “Graças!

  1. Literalmente muito bem pensado! Concordo e assino embaixo. Como espiritualista e amante da semântica, me peguei naturalmente trocando o “muito obrigada” pelo “grata” ou pelo “gracias” – acho + sonoro do que “graças”, mas tb. é bonito e capta o espírito da coisa – faz um tempinho.
    Acho que essa aberração só existe mesmo em português; até os protestantes quando rezam agradecendo pelas refeições antes de fazê–las, “say grace”/ “dão graças” (=gratidão). O sentimento da gratidão é que motiva o dito, e não o sentido de uma obrigação. Valeu, Carlinhos!

  2. Graças, Carlinhos, pelos oportunos e nunca tardios comentários. Estou de pleno acordo com você.
    Abrs,
    Reinaldo

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