Presidente casca grossa

No afã de “defender” a comédia E aí, Comeu?, que a Riofilme coproduziu e está ajudando a distribuir, o presidente da entidade, Sérgio Sá Leitão, postou sábado no Facebook e no Twitter algumas pérolas do estilo que o vai caracterizando.

Numa delas, chama atenção pelo contrassenso do comentário, já que O Globo está longe de qualquer preconceito contra os filmes comerciais. As queixas mais comuns são justamente no sentido oposto. Mas Leitão escreveu: “Adoraria entender pq o Segundo Caderno do Globo discrimina o cinema brasileiro q procura disputar a bilheteria… E faz sucesso! Incrível…”

Em outra postagem, avançou um pouco mais na repreensão aos críticos do jornal, e aí já não se sabe mais o que é ironia ou ataque direto: “A crítica de cinema do Globo é um PSTU da cultura. Odeia o sucesso. Detesta a diversão. E usa o jornal para fazer “resistência cultural”…”

Por fim, partiu para o ataque grosseiro, cujo alvo seriam todos os críticos que fizeram restrições ao filme, mas especialmente – pela sequência de comentários contra O Globo – a crítica Susana Schild, que deu o Bonequinho dormindo no filme de Felipe Joffily: “Diga não aos críticos malcomidos! Veja E Aí… Comeu? hoje e tenha 100 minutos de prazer & reflexão! Isso sim é “resistência cultural”…”

Nem vem ao caso reafirmar o papel de resistência cultural que cabe mesmo à crítica diante dos produtos vulgares e de má qualidade que o mercado está gerando no cinema brasileiro atual (não vi o filme em questão, portanto não me refiro especificamente a ele). Sérgio Sá Leitão quer uma crítica alinhada com os pretensos sucessos de bilheteria, mesmo quando eles ainda nem se provaram como tal. Melhor dizendo, ele quer uma crítica afinada com o modelo “empresarial” que instituiu na Riofilme, do tipo “o sucesso a qualquer preço”.

O que importa mesmo, nesse caso, é repudiar os termos com que o presidente de um órgão público se manifesta para contestar os jornalistas. Se esse tipo de comentário fosse emitido por um Sérgio qualquer, já seria estúpido, machista e indigesto, mas vindo de um homem público no exercício do seu cargo, é mais que isso – é despotismo e obscenidade institucional.

O Blog do Bonequinho reagiu rápido à ofensa. A Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro soltou hoje a seguinte nota:

“A Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro repudia veementemente os comentários desrespeitosos do Sr. Sérgio Sá Leitão a respeito da apreciação crítica de O Globo do filme “E aí, comeu?”. Consideramos que tal atitude, além de representar uma grave quebra de decoro do seu cargo de presidente da Riofilme, constitui uma agressão ao exercício crítico e uma forma nada civilizada de inserir-se no debate cultural.”

Em seu Almanakito online, a jornalista Maria do Rosário Caetano também protestou: “Que pobreza de espírito, que falta de tato político para um dirigente de uma empresa pública…”

Não foi a primeira vez que Leitão fez trapalhadas nas redes sociais. No Festival do Rio do ano passado, valendo-se do privilégio de copatrocinador do evento, ele vazou no Twitter o vencedor da Première Brasil duas horas antes do anúncio oficial, jogando água no chope da festa e gerando uma saraivada de protestos.

Agora, no caso de E aí, Comeu?, alguém precisa avisar ao presidente da Riofilme que trabalhar pelo sucesso de seus filmes não implica que ele se comporte de modo semelhante aos respectivos personagens.

7 comentários sobre “Presidente casca grossa

  1. Jornalista é tudo comprado mesmo. Só tem puxa saco do socialismo. falam bem de filme gringo porque ganham presente e fazem festinhas pros críticos. Como cinema nacional não tem grna pra dar festinha pra crítico de cinema, ninguém fala nada.

    Vejo o comentário das pessoas aqui. Pessoas que acham que conhecem o mercado cinematográfico melhor que o presisnte da empresa que trabalha com isso.

    As pessoas são condicionadas a não gostar de palavras duras. Porque vivem numa realidade fantasiosa onde tudo é lindo, rosa e perfumado. Então quando acontece um escândalo na mídia fica todo mundo horrorizado.

    Vão me desculpar, meus amigos. Mas vocês são todos hipócritas.

  2. Carlinhos, não podemos esquecer também do episódio em que o digníssimo lamentou no Twitter e Facebook o fato de O Globo ter dado a capa do RioShow para as novidades do cinema brasileiro mais independente, e não para o lançamento comercial mais importante (comercialmente) da semana: Harry Potter 7. O acontecimento mais recente é até mais explícito, do ponto de vista da pretensão e da estupidez, mas esse evento anterior é muito mais grave para alguém que ocupa a função que ocupa. Afinal, por que o presidente de uma empresa pública de cinema lamenta o fato de se dar um pouco de visibilidade ao cinema mais alternativo feito no país ao invés de reforçar o marketing milionário de uma major? O fato é que a batata está mais que assada. Os acontecimentos não se anulam: se somam. Esperamos que o prefeito em campanha (ou seus assessores) perceba que o problema respinga nele…

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