Minha desOcupação

Neste sábado o Instituto Itaú Cultural inaugura, em São Paulo, a Ocupação Nelson Pereira dos Santos. Ao contrário do que eu havia anunciado, não assino a curadoria da exposição. Chegamos a isso depois de um processo penoso, que resumo a seguir.

Quando fui convidado pelo Itaú Cultural para fazer a curadoria, e tive meu nome aprovado pelo Nelson, apresentei a proposta de fazer uma espécie de viagem pelo Brasil através da obra do cineasta, enfatizando sua veia de intérprete do país através do cinema. Assim, o visitante percorreria “estações” alusivas aos mitos e à religiosidade, à nossa formação étnica, à língua portuguesa, à música popular brasileira e às questões de liberdade (política e comportamental). Cada “estação” teria monitores com cenas de filmes, fotos, recortes, textos, documentos, objetos, áudios etc, garimpados em diversos acervos com a pesquisadora Aída Marques. 

Com base nessas ideias, o cenógrafo Marcos Pedroso (Madame Satã, Cidade Baixa, Cinema Aspirinas e Urubus, O Céu de Suely, Transeunte) criou os espaços – uma espécie de túnel e uma “praça”, contando ainda com “ilhas” para uma abordagem biográfica, uma celebração dos encontros de Nelson com escritores e pensadores, e uma comemoração dos 50 anos de Vidas Secas.

Em mais de uma ocasião, Nelson questionou aspectos dessa linha curatorial. Achava-a por demais “acadêmica”. Numa das discussões, chegou a afirmar que não pensava “no Brasil” ao fazer seus filmes. Parecia não compreender que o espírito da Ocupação é fornecer um olhar alheio sobre a obra do artista, e não refletir a visão que ele próprio tem dela. Nisso estávamos eu e o pessoal do Itaú Cultural bem afinados, uma vez que eles muito apreciavam essa outra forma de “ver” a obra do cineasta. Em certo momento, eu e Nelson trocamos correspondência em que eu pedia seu voto de confiança para oferecer uma leitura transversal e inédita de sua produção. Ele aquiesceu, prometendo não mais interferir.

Prosseguimos, então, no trabalho, cheios de entusiasmo. Mas eis que, na fase final de concepção, quando já partíamos para a produção das peças e edição dos clipes, Nelson acirrou suas críticas ao projeto e passou a pedir retiradas e mudanças estruturais que desfiguravam completamente a proposta de curadoria. Em nenhum momento foi possível captar exatamente o que ele queria, além de mostrar cenas de filmes (as que ele escolhesse) e frases da crítica. Uma alternativa bastante pobre, que eu não assinaria como curador nem interessava ao Itaú Cultural, cuja direção prestigiou minha proposta integralmente, do início ao fim. Foi quando abri mão do papel de curador.

Ao cabo de negociações árduas, que não me cabe aqui detalhar, a exposição vai abrir sem praticamente nenhuma das ideias originais. Ficou-me, por um lado, o alívio de não compactuar com o óbvio; e por outro, o desapontamento de ver um grande artista fechar-se a uma interpretação qualificada de seu trabalho.            

8 comentários sobre “Minha desOcupação

  1. blogs são sempre tão pessoais aonde só se conta um lado da história : o próprio . carlos alberto foi tão desrespeitoso com o cineasta homenageado 85 anos de vida 65 anos de cinema que falam por si só acima de qualquer curador , cenógrafo e equipe cultural que beberam ou não em suas fontes ( vejam capa do Estadão hoje ) que só resta o próprio blog para poder “se expressar” parabéns Camattos pela grata desocupação , todos sairão ganhando !!

  2. Silvio, antes de se manifestar, vc que tem uma vasta experienciia politica, penso que deveria ouvir o outro lado…Coerencia e integridade combinam bem com o Nelson !

  3. Acho no minimo indiscreta e desrespeitosa essa sua explicacao. Um pouco de etica e humildade nao faz mal a ninguem.

    • Bigode, você tem todo o direito de achar o que quiser, mas não queira cassar o meu direito de me manifestar sobre assuntos que me dizem respeito diretamente.

  4. Carlos, é decepcionante pra nós, público, que perderemos, desta vez, sua curadoria interessante. Mas o Projeto Mario Carneiro Trânsitos adora e agradece sua presença, sua inteligência e colaboração solidária! Outros trabalhos virão!

  5. Lamentável. Como já se sabe, raramente os próprios artistas são os que melhor compreendem as dimensões de sua obra mais além do que eles pretenderam, derrapando de modo ciumento na obviedade das intenções originais. A idade também pesa para muitos, tornando-os mais rígidos.

  6. Então o acadêmico considerou adadêmica sua curadoria? Que pena. Com isso, perde o cinema brasileiro, o público e o próprio Nelson. Parabéns, Carlos Alberto Mattos, por mais essa demonstração de coerência intelectual e integridade.

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