Bem-vindo à casa de boneca

Doce Amianto tem pré-estreia hoje (sábado) às 19h15 na Semana dos Realizadores.

Você abre o site oficial de Doce Amianto e seus olhos são invadidos por uma página em vibrante rosa-choque. Você começa a ver o filme e a tela do cinema é sacudida pela imagem da protagonista correndo em direção à câmera enquanto tem a roupa trocada sucessivamente como num clipe de figurinos da Barbie. Você ouve pela primeira vez a voz dela e toma um susto com o falsete exagerado, os suspiros, o tom afetado. E ainda assim, mesmo com tanto choque, você quer acreditar em Doce Amianto e seguir sua viagem.

Enquanto assisitia ao filme de Guto Parente e Uirá dos Reis, eu me perguntava por que não perdia o interesse por aqueles personagens tão improváveis e por aquela estética tão artificialista. Esse tipo de tratamento com frequência me provoca rejeição e impaciência. Mas aqui nada disso acontecia. Percebi aos poucos que estava sendo atraído não pelas criaturas ou pelo que elas viviam na tela, mas pela convicção com que isso me era mostrado. A confiança com que aquelas imagens e aqueles sons eram colocados em cena é o que gerava sua beleza. A estética de Doce Amianto me parecia tão indiscernível de sua dramaturgia que uma impressão de inteireza e coerência crescia a cada nova sequência.

Amianto é um travesti, uma mulher em corpo de homem (Deynne Augusto). Ela é chutada pelo namorado e tem sua dor confortada pelo fantasma de Blanche, um amigo morto, ele também travesti. Estamos, é claro, no terreno dos contos de fadas, um pouco como acontecia no excepcional Morrer como Homem, do português João Pedro Rodrigues, ou em tantos filmes do indefectível tailandês Apichatpong Weerasethakul. O aspecto feérico da fábula é conferido por um tratamento de luz e cor inspirado na nova psicodelia das festas, mas também tributário de uma tradição underground-gay que vem de Kenneth Anger e Rosa Von Praunheim.  

O mundo de Amianto é expressionista, performático e nada naturalista. É sintomático que as duas sequências mais identificadas com procedimentos formais (uma consulta médica e um casamento) sejam as mais irônicas e frontalmente cômicas. Com poucos recursos e muita imaginação, a diretora de arte Lia Damasceno criou ambientes que evocam o tempo todo o estado de espírito da personagem e colocam o espectador numa dimensão meio mágica, meio dark, como numa casa de boneca cenografada por David Lynch. 

Em dado momento, Blanche, a fada-madrinha de Amianto, abre um longo parênteses no filme para contar uma história. Veremos as desventuras de um jovem comum que acorda um dia com o corpo coberto de pequenos círculos vermelhos. Em outros tempos, isso poderia soar como uma metáfora para a Aids, mas aqui é elemento de uma pequena fábula perversa contida dentro da história maior. O gosto do filme pelo “contar histórias” transparece nesse predomínio da fantasia, do onirismo e da dicção poética sobre qualquer outro código, seja dos gêneros cinematográficos, seja do universo gay.

Doce Amianto é uma estadia no inferno de uma imaginação delirante e romântica. Uma viagem empreendida sem pedir licença aos pruridos do público, mas com a determinação de correr muitos riscos e o talento para driblá-los um a um.         

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