Pílulas 44

Se AZUL É A COR MAIS QUENTE mereceu mesmo a Palma de Ouro, não sei. Assisti aos 180 minutos com prazer ininterrupto, mas não saí extasiado. Trata-se de uma história simples: o amadurecimento de uma jovem comum no contato amoroso com uma moça mais velha e culta. Na verdade, uma paixão daquelas que estraçalham uma juventude e a ensopam em lágrimas. Adèle vê em Emma não um modelo a seguir, mas quase uma entidade a cultuar. As cenas de sexo são intensas e veristas, embora não completamente explícitas, a começar pelos beijos mais técnicos que qualquer outra coisa. O mais explícito mesmo é a progressão da relação entre elas e as descobertas de Adèle a respeito de sua sexualidade. Nisso brilham os diálogos longos e precisos, assim como o naturalismo minucioso das atuações. Adèle Exarchopoulos é um milagre de transparência e espontaneidade. Justamente porque tudo no filme é muito bem engendrado, salta aos olhos a forma exagerada e precipitada com que é feita a cena do bullying das colegas de faculdade, crucial para a definição do não-lugar de Adèle. Essa sensação de estar sobrando no mundo, tão comum a pós-adolescentes como ela, é a rota pela qual seguimos a personagem da maneira mais íntima possível. Uma menina, nada mais.

A FLORESTA DE JONATHAS, que vi na Mostra do Filme Livre, é talvez a mais incisiva e bem-sucedida “aclimatação” do hiperinfluente estilo de Apichatpong Weerasethakul à paisagem brasileira. Sérgio Andrade adapta bem os tempos agonizantes, o laconismo dos personagens e o misto de sensualidade e esoterismo do tailandês a uma mitopoética amazônica, apoiado numa fotografia e numa edição de som cheias de personalidade. Não é um filme que compra barato a atenção do espectador. Exige disponibilidade de imersão para fazer ecoar a história de um jovem vendedor de frutas que encontra o anjo da morte na figura de uma turista ucraniana. Talvez seja um pouco “quero ser Apichatpong” demais, mas a coesão de todos os elementos acaba convencendo de que ali tem um filme, e não apenas uma curiosidade estilísitica dentro do cinema brasileiro.

Para mim, François Ozon chega com JOVEM E BELA ao nível mais medíocre de sua carreira recente. Com ação dividida em quatro estações, o filme tem um verão e um outono completamente abúlicos, tentando desenvolver uma personagem mais rasa do que poça d’água na garoa. As coisas melhoram um pouco no inverno e no verão, quando alguns comentários espirituosos sobre valores de mercado e as relações da jovencita prostituta e sua família ganham ingredientes um pouco mais complexos. Ainda assim, não basta ter uma jovem melancólica se doando a homens mais velhos e um estilo blasê para ser um novo Robert Bresson. Faltam perspectiva e profundidade ao filme para acrescentar alguma coisa à proverbial fixação do cinema francês por putinhas de pouca idade. Ozon cria expectativas tolas (a sexualidade do irmão de Isabelle/Léa, as intenções da personagem deus ex-machina de Charlotte Rampling) e abusa de clichês até nas canções “ilustrativas” de cada momento da moça. JOVEM E BELA é como prostituta que não confere com as fotos do site.

Esse tal de CINE HOLLIÚDY é filme da peia mesmo. Eu confesso que não acreditava muito não. Achava o trailer meio espilicute, pensava que ia rir só mais ou menos. Mas no fim das contas dei tanta risada que quase despreguei os intestinos. Parece que pegaram essas histórias tipo “Cinema Paradiso” e “Splendor”, dublaram em cearensês com macaúba na boca e botaram tudo lá no meio do Ceará. Tem pra ninguém não. Brincam de todo jeito com o gosto do povo pelos filmes de porrada. No meio da história tem uma família tão carinhosinha que chega a ser chatinha, macho véio. Podia ter 10 minutinhos a menos contados no relógio, e aí ficava mais invocado ainda. Mas é uma ingenuidade tão boa, uma presepada tão ligítima, uma desmiolagem tão bem arrumadinha que a gente nem gosta quando acaba. Se eu fosse você eu ia ver esse filme, ah eu ia ver esse filme.    

O que dizer de BLUE JASMINE que já não tenha sido dito a respeito de outros filmes de Woody Allen sobre as relações entre amor, dinheiro e o sonho americano? A novidade aqui é um forte comentário de classe, feito com mão pesada e a muleta da caricatura. Falta sutileza a essa história de ex-rico em farrapos e pobres no encalço da felicidade. Se não fosse o elenco, e principalmente a performance diabólica de Cate Blanchett, talvez não chegasse sequer a ser um bom filme. Mas para quem ama Woody, lá está ele de novo falando através dos personagens, mobilizando noções universais como orgulho, aceitação e desejo de vingança da forma descontraída e bem-humorada de sempre. Apesar de todo humor, há nítida compaixão no retrato amargo da personagem de Cate, prova do humanismo do autor. Não achei brilhante nem gostei do final brusco, mas a cena da “conversa” com os meninos e a piada da corda na prisão são da pontinha, como diziam nosso avós.

O júri de Brasília teve toda razão em dar o prêmio de melhor filme de ficção a EXILADOS DO VULCÃO. Só ontem pude ver, na Semana dos Realizadores. Fiquei extasiado com tanta beleza. Os trabalhos excepcionais do fotógrafo (peruano-chileno) Inti Briones e do editor de imagem e som Fábio Andrade possibilitaram a Paula Gaitán aprimorar ao máximo sua veia plástica num filme que é deleite audiovisual ininterrupto. EXILADOS pode provocar rejeição por quem não curta os contornos muito fluidos da história – uma mulher encontra o diário de um homem morto e segue seus rastros -, fique impaciente com a lentidão exacerbada dos movimentos de câmera ou se aborreça com o lado meio poseur das atuações e do quadro. Há somente uma pequena fala e um canto em “on”, um pouco mais em “off”, e o resto é “contado” pelas locações em Minas e a belíssima suíte de música e ruídos. Ecos de Kiarostami, Resnais e Antonioni ressoam aqui e ali. Filme para ser visto como se lê um poema, entregando-se à sonoridade das imagens e à visualidade dos sons. Dura 127 minutos, mas eu ainda queria mais meia-hora daquele misto de encantamento e estranhamento.

Xamânico – esse foi o adjetivo que me ocorreu mais fortemente enquanto assistia a OLHO NU, o doc de Joel Pizzini com Ney Matogrosso. Em sua montagem modular e imbricada, o filme incorpora e potencializa traços da personalidade de Ney, como seu desejo de simbiose com animais e plantas, o uso do corpo na invocação de estados múltiplos da mente, a apropriação da música como instrumento de metamorfose. Ney se autorretrata em falas entrecortadas, que se unem a trechos de 85 músicas para compor uma suíte audiovisual requintadíssima. Ele é sempre inteligente e intenso no que diz, tanto quanto é sedutor na forma como diz. Joel e sua bela equipe sugaram o máximo daquele sumo. Mesclaram memória e performance, canto e fala, presente e passado a ponto de criar uma espécie de presente estendido onde cabem todos os tempos. Num dado momento, Ney diz que a máscara o fez descobrir-se na falta de identidade. É uma frase bonita e crucial para se entender um artista que se expõe na mesma medida em que se esconde. OLHO NU, apesar algumas pequenas delongas (notadas apenas em função da montagem em geral inspirada e precisa), é a fusão ideal de dois artistas e duas linguagens. 

2 comentários sobre “Pílulas 44

  1. Ótimas pílulas, sínteses brilhantes do que se diz por aí com mais palavras demais (eu incluído): tenho a mesma impressão sobre “Azul”, ótimo, mas com algumas reservas. Já “A Floresta”… me soou apenas “quero ser Apichatpong” (escrevi a mesma coisa inbox para amigos). “Jovem e Bela”, uma bobagem metida. Gosto mais de Jasmine do que você. Abraços

    • Não há nenhuma pretensão nessas pílulas, que são frutos mais de uma impressão instantânea do que de uma reflexão aprofundada. Valeu, Gallego, pelo feedback amigável.

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