Papai realidade

O Menino e o Mundo, segundo longa de Alê Abreu (Garoto Cósmico) é mais um feito admirável da animação brasileira. Se Uma História de Amor e Fúria ganhou o Festival de Annecy com um estilo mais próximo da animação comercial americana (embora muito bem adaptado à História brasileira), o filme de Alê está também se projetando internacionalmente mediante uma maior identificação com as tradições da animação europeia e canadense. Desenhos delicados, composições elaboradas revezando-se com outras ousadamente minimalistas (o uso do branco, por exemplo, é de uma coragem notável), uma sofisticada relação entre espaços e tempos que se reflete nas variações do estilo e das técnicas ao longo do filme.

Na história do menino que vê o pai sumir no mundo e sai atrás de uma imagem paterna, atravessamos sucessivamente do mundo rural e atemporal para o paroxismo das mensagens urbanas, para uma distopia futurista em que se destaca uma neofavela à moda de Blade Runner e até para uma passagem pelo abstracionismo imaterial do universo dos bits. Saindo em busca de um pai, o menino descobre a realidade da exploração do trabalho, da opressão industrial e da destruição ambiental. Em dado momento, o filme faz um aceno aos animadocs, incluindo cenas ao vivo de documentários como Iracema, ABC da Greve e Ecologia, os dois últimos de Leon Hirszman.

Além do encantamento visual ininterrupto, Alê Abreu nos brinda com um trabalho sonoro belíssimo – do idioma inventado em que falam os personagens à trilha sonora inspirada de Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, com participação de Naná Vasconcelos. O som do filme é constitutivo de sua dramaturgia a partir do equivalente sonoro à presença/lembrança do pai e equaliza referências brasileiras e latino-americanas num amálgama em que tantos de nós podemos nos reconhecer.

Afora um ato final um tanto confuso, especialmente para o público infanto-juvenil, O Menino e o Mundo tem arte e engenho de sobra para cativar espectadores de várias idades e latitudes.

2 comentários sobre “Papai realidade

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s