Sibylle, Vivian e John

um-pai-puzzle_ana-beatriz-nogueira_credito-marcelo-correa_8Ana Beatriz Nogueira, essa gigantesca atriz, vai brilhar mais uma vez no palco a partir desta semana como uma filha de Jacques Lacan no monólogo UM PAI (PUZZLE), no CCBB-Rio. Assisti a um ensaio aberto no último fim de semana e de novo fiquei pasmo com a capacidade da Ana de se apoderar de uma personagem e fazê-la profundamente sua. Ela vive Sibylle Lacan, a filha que se sentia rejeitada pelo pai e a derradeira na escala de afetos da família. Um complexo, talvez, mas transformado em energia vital para superá-lo, ainda que dolorosamente. No livro homônimo, Sibylle narrou suas depressões, seu misto de amor e ódio pelo pai, suas decepções, suas queixas. Evaldo Mocarzel preparou a adaptação, que chega ao palco dirigida por Vera Holtz e Guilherme Leme. O texto é relativamente simples e direto, um texto de memórias de alguém que reconhecia na linguagem uma forma de cura. É Ana Beatriz que o torna talvez um pouco maior do que é. Ela modula as esquinas das frases de maneira a extrair sempre alguma surpresa, mergulhar na tristeza mais profunda para de repente emergir com um laivo de humor inesperado. Ela aproxima Sibylle de nós de tal forma que não há como não nos vermos um pouco naquele lugar de quem se recusa a aceitar o abandono total, porque isso seria abandonar a si mesmo. Acometida de uma doença incurável, Sibylle suicidou-se em 2013, aos 73 anos, com uma overdose de medicamentos. O livro, publicado em 1994, não deixava entrever esse desfecho.


Se Mary Poppins e Robert Doisneau fossem uma mesma pessoa, ela certamente se chamaria Vivian Maier. A FOTOGRAFIA OCULTA DE VIVIAN MAIER (FINDING VIVIAN MAIER) documentário que concorreu ao Oscar, é, antes de tudo, uma incrível história humana. A história da babá que não tirava a máquina fotográfica do pescoço – mesmo se a criança sofresse um acidente na rua – e era capaz de levar uma menina para visitar um matadouro que ela queria filmar em Super 8. A história da grande artista e acumuladora que, ao invés de divulgar sua obra, a estocava em malas e mais malas, junto a todo um acervo de documentos pessoais que arrastou consigo de casa em casa, por toda a vida, como um caracol. O filme é dirigido em conjunto por Charlie Siskel (produtor que já trabalhou com Michael Moore) e John Maloof, o pesquisador que casualmente descobriu um lote de fotos de Vivian e saiu à procura do resto. Reuniu e tratou cerca de 100.000 imagens, além de muitos rolos de filmes, revelando enfim ao mundo uma das melhores fotógrafas de rua de todos os tempos. Maloof narra no filme os caminhos dessa revelação em paralelo à investigação do passado de Vivian. Houve críticas à exposição do trabalho de uma pessoa que aparentemente o queria oculto. Mas isso não se sustenta diante do respeito com que ela é tratada e os cuidados que estão sendo tomados com o material. O roteiro desvela com habilidade as várias facetas de sua personalidade e de sua obra, fazendo com que os habituais elogios criem uma camada de aceitação para os enigmas e o lado negro que virão em seguida. O fato de muitas lacunas e perguntas persistirem na vida dessa mulher-esfinge, acreditem, só faz melhorar o documentário. Como nas fotografias mais sugestivas, as áreas de sombra são fundamentais.
Vejam aqui a obra de Vivian


No embalo de outros filmes recentes sobre grandes fotógrafos, vi o doc GET THE PICTURE, de Cathy Pearson. É um filme interessante e visualmente caprichado, que no entanto perde coesão em sua dupla intenção. O roteiro tenta, de maneira um tanto errática, conciliar a biografia profissional de John G. Morris, lendário editor de fotografias, com uma mensagem pacifista canalizada através da fotografia de guerra. Morris teve alguns dos empregos mais invejáveis do ramo, sem precisar se expor aos riscos dos conflitos. Foi editor de imagens da revista Life durante a II Guerra e do The New York Times à época da Guerra do Vietnã, postos em que abriu espaços cada vez maiores para as fotos. Mas também foi editor executivo da mítica agência Magnum, quando, por exemplo, editava os contatos de Cartier-Bresson, e correspondente da National Geographic em Paris. GET THE PICTURE, cujo título é o mesmo do livro de Morris sobre sua experiência, concentra-se nas reportagens de guerra e passa batido sobre outros aspectos do trabalho do editor, especialmente no que diz respeito à natureza específica do seu trabalho, ao que parece um misto de curador e comerciante. Mesmo as questões de risco, ética e relacionamento entre os fotógrafos são diluídas numa visão generalista do trabalho em conflitos bélicos. O refrão antiguerra é repetido com uma música sentimental excessiva. O convencionalismo se acomoda na alternância de cabeças falantes e fotografias. Por razões que não se justificam, o filme abre e fecha com a elegia amorosa de Morris a sua nova namorada. Eles se apaixonaram aos 93 e 84 anos respectivamente. É bonito, sem dúvida, mas faltou um editor para dizer que aquilo estava na “página” errada.

3 comentários sobre “Sibylle, Vivian e John

  1. Pingback: Melhores de 2015 | ...rastros de carmattos

  2. Vi Ana Beatriz há alguns anos em uma peça incrível no CCBB que se passava em um cenário de biblioteca de uma casa e os espectadores ficavam sentados “no” cenário. Ela lia para um cego, contratada pelo pai do rapaz. Sei que o texto era ótimo, que os 3 atores eram ótimos, que o espetáculo era ótimo (e perturbador). Esqueci quem escreveu, quem dirigiu, e quem eram os atores masculinos, injustamente, mea culpa, mea máxima culpa – ou do alemão. Mas não esqueci da composição da Ana Betariz mais perturbadora do que o texto que já era uma charada e tanto, ao que me lembre. Não perco esse espetáculo novo com ela de jeito nenhum.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s