Mulheres-fênix

EugeniaCom o monólogo EUGÊNIA, a bela atriz Gisela de Castro está fazendo um papel-revelação às terças e quartas-feiras no Teatro Eva Herz (Livraria Cultura, centro do Rio). Sozinha no palco, ela vive umas 50 mulheres e ao mesmo tempo uma só: Eugênia José de Menezes, filha do governador de Minas Gerais no século XVIII, escolhida para ser dama de honra de Carlota Joaquina. Ela se tornaria amante de D. João VI e, quando uma gravidez ameaçou de escândalo a corte, foi degredada para um convento no sul da Espanha. Sua história é contada pela própria, que volta do mundo dos mortos (“Eu estou morta, mas estou ótima!”) para nos contar nos dias de hoje. É assim que Gisela se desdobra em personagem e comentadora, assumindo as diversas facetas de cada uma, de coquette setecentista a funkeira, de mulher fatal a reles contadora de fofocas.

A atriz exibe um histrionismo de que eu não suspeitava, já que a conhecia de alguns outros trabalhos. Seus recursos vocais, faciais e corporais enchem o palco numa movimentação quase incessante. O monólogo se vale de uma única peça de cenário: uma espécie de baú das maravilhas, de onde saem não só todos os figurinos, adereços e objetos, como a própria atriz. A direção de Sidney Cruz e a ação cênica são ágeis e milimétricas, valorizadas pela iluminação inspirada de Aurélio de Simone. A peça cresce bastante entre o início um tanto informativo e a metade final, mais exuberante. Algumas referências jocosas à política atual soam como chamariz fácil para o público médio, mas isso não prejudica a lição de História que passa através da lição de carisma teatral de Gisela.


primary_phoenix-001_largePHOENIX é como um castelo imponente sustentado por colunas de maionese. Para se interessar e se comover com a história da sobrevivente de um campo de concentração, dada como morta, que tenta se recompor com o marido e consigo mesma depois de ter o rosto completamente modificado, o espectador terá que engolir uma série de implausibilidades: que um marido não reconheça a esposa pela voz, a letra, as mãos e o resto do corpo inteiro, mesmo convivendo com ela durante semanas e vendo-a saber de coisas que ninguém mais sabia; que uma mulher desfigurada passe por uma cirurgia plástica, em 1945 ou pouco depois, e fique com o rosto intacto de Nina Hoss, sem uma marca ou cicatriz. Poderia citar muitas outras, o que deixo de fazer para não revelar mais da trama. Como no anterior “Barbara”, Christian Petzold atropela a lógica dramatúrgica para empurrar seus enredos para a frente, no que conta com a habitual parceria/cumplicidade de Harun Farocki. E consegue ser apreciado pelos que não ligam para isso ou convocam interpretações tortuosas para justificar os furos dos roteiros. No caso de PHOENIX, já li referências a “denegação da realidade” para o marido e “medo da perda” para a mulher. Mas isso exigiria muito mais sutileza, noção de progressão e verossimilhança do que se vê. Para quem consegue fazer um esforço especial de suspensão do descrédito, o filme oferece momentos memoráveis (sobretudo a cena final), uma performance matizada de Nina Hoss e um insight curioso nos destinos individuais do imediato pós-guerra.

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