O movimento em movimento

Tive a rara oportunidade de ver Cinema Novo, de Eryk Rocha, numa plataforma especial para jurados do Prêmio Fênix. O filme ganhou o “Olho de Ouro” de melhor documentário entre todos os apresentados no último Festival de Cannes, premiação criada no ano passado. Nem a imorredoura reputação do Cinema Novo na Europa – especialmente na França -, nem a presença de Amir Labaki no júri, porém, são suficientemente responsáveis pelo destaque ao filme. Cinema Novo é mesmo um primor de compilação fílmica.

Eryk fez dezenas de horas de entrevistas atualizadas com personagens do CN, mas acabou deixando tudo isso de fora, a não ser por alguns fragmentos de áudio. Na imagem, além dos trechos de filmes, ficaram somente depoimentos de cineastas tomados nos anos 1960 ou 70. A imersão na época, portanto, é praticamente total. E a seleção, inserção e “conversas” criadas entre as cenas de filmes, na montagem tonificante de Renato Vallone, potencializam o vigor cênico, a qualidade artística e a potência política do movimento.

Movimento? Sempre houve, entre os próprios cinemanovistas, o discurso de que existiram “vários Cinemas Novos”, com temas, preocupações e estéticas razoavelmente distintas. Essa tese, repercutida também no filme, é confrontada com o trabalho de compilação, que aponta grandes linhas de unidade correndo dentro da diversidade. Lá estão as armas, os êxtases, as corridas desabaladas pelo campo ou pela cidade, as imagens de agonia e dissolução, os indivíduos na estrada, as favelas, sambistas, bares e ruas que ficaram como distintivos de um momento glorioso da cultura brasileira.

Vertoviano, o doc integra filmes e bastidores num fluxo irresistível de imagens-ideia. É o movimento em movimento. Navegando, por exemplo, da máquina de costura de Limite a uma moviola, e dali à costura das redes de Arraial do Cabo, Eryk tece uma genealogia do Cinema Novo, que vem até seus herdeiros, como Iracema, de Bodanzky e Sena, A Idade da Terra e Eles não Usam Black-tie. O golpe de 64 e o AI-5 ferem a carne do cinema e deixam marcas de tensão e dor. A estupenda edição sonora transcende o material original para criar uma suíte arrebatadora.

Os registros preciosos incluem Mario Carneiro, Leon Hirszman e outros disputando uma animada partida de ping-pong, uma divertida sucessão de cineastas dando depoimentos em francês, Luiz Carlos Barreto apresentando a Difilm e muito mais. Pode-se questionar a ausência de imagens de O Pagador de Promessas (a eterna polêmica…) e a inclusão de Jardim de Guerra, de Neville d’Almeida, bem mais identificado ao Cinema Marginal. Mas Cinema Novo vem aí para isso mesmo: recolocar o movimento em discussão, 50 anos depois do seu auge.

2 comentários sobre “O movimento em movimento

  1. Instigante texto. O movimento já é quase sexagenário! Parece que Eryk Rocha saldou uma “dívida” que a geração anterior deixou em aberto. A conferir. Mas essa viagem parece obrigatória para quem acha importante o cinema brasileiro.

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