Shaolin do sertão e detetive de Seul

A parceria do diretor Halder Gomes com o ator e campeão de kung fu Edmilson Silva, bem-sucedida em “Cine Holliúdy”, volta a emplacar e botar o Ceará no mapa da comédia brasileira com O SHAOLIN DO SERTÃO. A paródia aos motivos do cinema de massa se repete, bem como a sátira da vida política no interior do Nordeste. Ainda assim, o novo filme tem muita novidade pra atirar nas fuças da plateia. A paixão de Aluízio Li pelas artes marciais o leva a superar o físico de “filé de lacraia” para se candidatar a herói da sua cidade, sempre com a ajuda do pequeno Piolho, de um mestre meio cafajeste e de um anjo chinês que… Bom, vocês vão ver com seus próprios olhos a sertaneja Quixadá virar uma sucursal de Hong Kong.

Halder confirma seus dotes de bom contador de história e exímio esgrimista do humor popular. O “paraíso” do shaolin mostrado em VHS e os treinamentos aplicados aos recursos do sertão são ideias inspiradas, divertidíssimas e bem aproveitadas na trama. Apesar de alguns tiros n’água, o roteiro de L.G.Bayão (com a colaboração de Halder e Edmilson) explora bem todas as subtramas e evolui com a mira certeira de um voo do Dragão. A direção impõe um ritmo bem dosado e o elenco brilha como folhagem de juazeiro ao sol.

Depois do sucesso de “Cine Holliúdy”, Halder contou com nomes e marcas de peso nos créditos de produtor e distribuidor. Diante da média das comédias populares nordestinas, O SHAOLIN DO SERTÃO é uma superprodução. Melhor ainda quando a gente vê que tudo foi bem aproveitado – e o espírito caipira não serviu de desculpa para desleixo ou precariedade. “Cine Holliúdy 2” vem aí, e a confiança é tanta que o cearensês dos cabras nem tem mais legenda. E mesmo assim a gente quase papoca de tanto rir. Afinal, pra quê legenda se, como ensina o grand master, depois da meia-noite a tendência é amanhecer?


Não é fácil morrer ou estar morto no cinema coreano. Hitchcock já havia explorado essa dificuldade em O Terceiro Tiro e Festim Diabólico. A comédia policial UM DIA DIFÍCIL tem elementos hitchcockianos levados ao paroxismo típico da produção de Seul.

Nesse fatídico dia do título, um detetive tem que lidar com o funeral da mãe, um atropelamento casual, a ocultação de um cadáver, as suspeitas que recaem sobre ele, as chantagens dos colegas corruptos e ainda as ameaças de uma testemunha que pode incriminá-lo. Ou seja, os ingredientes típicos da receita coreana de clichês de ação, violência maníaca e humor negro, tudo servido naquele tom meio alucinado e maquínico que faz os atores se assemelharem a bonecos movidos por controle remoto.

Para quem tolerar os exageros e o ritmo incessante, há a compensação de situações cômicas eficientes e a técnica ágil que entretém todo o tempo. Entre as matrizes perceptíveis no filme de Kim Seong-hoom estão, além de Hitchcock, os Irmãos Coen (especialmente “Gosto de Sangue”), “Missão Impossível” e as extravagâncias de John Woo.

2 comentários sobre “Shaolin do sertão e detetive de Seul

  1. Não é fácil morrer ou estar morto no cinema coreano. Hitchcock já havia explorado essa dificuldade em O Terceiro Tiro e Festim Diabólico. (Com o humor de tais observações, “Um dia difícil” vai ficar devendo muito ao Blog”).

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