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GAGA – O AMOR PELA DANÇA é um documentário crowd-pleaser, ou seja, feito para agradar multidões. Ganhou o prêmio do público na Mostra de SP e ficou em terceiro lugar na votação popular do IDFA, a Cannes dos docs, em Amsterdã. Enfoca a carreira e o método do coreógrafo israelense Ohad Naharin, criador do estilo “Gaga”, que ele reivindica como uma linguagem. Ao final do filme, eu estava extasiado com a dança energética, os movimentos frenéticos, a mobilidade dos corpos e a precisão coletiva que irradiam de seus trabalhos. Principalmente depois do epílogo, um belo clipe de greatest hits coreográficos ao som de Caetano Veloso cantando “It’s a Long Way”. Eu vibrava, mas não tinha a menor ideia sobre o que consiste exatamente o tal “Gaga”.

Talvez para entendidos em dança seja fácil depreender de tudo o que se vê na tela. Compreendi que a coisa tem uma origem terapêutica (Ohad a desenvolveu enquanto se recuperava de um acidente na coluna) e uma aplicação idem (ele é visto como uma espécie de guru estimulando grupos de pessoas comuns e portadores de deficiência num grande salão de dança). Sei que ele não usa espelhos nos ensaios e exige dos bailarinos um misto de esforço físico e prazer. Mas, de resto, o estilo me pareceu confundir-se com muitos outros da dança contemporânea.

Essa insuficiência de esclarecimento talvez seja parte do caráter um tanto elusivo de Ohad Naharin. Ele fala de sua carreira como uma série de rejeições a experiências por que passou, inclusive Martha Graham, a Juilliard School e Maurice Béjart. A ponte que estabelece entre vida e criação não dispensa mesmo uma mentira que ele próprio se ocupa de revelar. Embora seja ele o narrador principal do filme, caberá a terceiros contar uma de suas mais corajosas atitudes pessoais, o enfrentamento da censura religiosa israelense à frente da Batsheva Dance Company. Por vezes o filme chega perto de sua intimidade, como ao flagrar uma saia justa entre ele, a segunda mulher e a filha, mas no geral permanece a uma distância respeitosa. O que se destaca, afinal, é o que mais interessa: a dança vigorosa, intrincada e surpreendente de Mr. Gaga.



Em ARGENTINA, Carlos Saura prossegue com suas antologias de música e dança ibero-americanas. Depois do flamenco, das sevilhanas, do tango e do fado, ele põe em cena diversas manifestações da música folclórica argentina. A grande descoberta é a variedade daquele universo, com suas zambas, bagualas, chacareras, chamamés, cuelas, malambos, bailecitos e carnavalitos. Os ritmos e toadas se avizinham tanto do tango quanto do flamenco e da música andina, além de algumas aproximações jazzísticas de primeira. Vocalizações exóticas, danças e sapateados energéticos se sucedem num grande galpão de La Boca, em Buenos Aires, contra fundos coloridos, transparências, espelhos, ampliações fotográficas ou telões de vídeo.

Ou seja, muda a música mas não muda a fórmula que Saura instituiu para essa vertente de sua obra. Repetem-se até as tomadas de abertura com o galpão ainda vazio e uma câmera na grua apontando para um espelho. A invenção deu lugar à mera sucessão de performances, variando o interesse conforme o apelo das músicas. Felizmente, a qualidade musical aqui é estupenda. Da aparentemente singela mas rebuscada e emocionada performance solo do velho Jaime Torres em sua Zamba Alegre a um exuberante conjunto de música e sapateado, passa-se por muitas formas inusitadas de tocar, cantar e dançar.

Revendo o filme agora, tive uma impressão melhor do que no Festival do Rio de 2015. Saura almeja transformar a música em teatro, seja pela ambientação de palco estilizado com luzes e cores, seja pelo estímulo a que os intérpretes exponham toda a sua verve. O exibicionismo e a vaidade argentinas, então, ganham passe livre. É certo que em alguns momentos a coisa beira a breguice, como na coreografia das “gatas” ou na homenagem a Mercedes Sosa sendo assistida num telão por colegiais. Para mim, quanto mais simples e menos teatralizado é o tratamento, mais belo é o resultado. Ainda bem que essa opção é predominante.