Suíte para um rio agonizante

Filmes-causa, sejam de pauta social, política ou ecológica, costumam submergir ao seu tema e, muitas vezes, resultam penosos como cinema. Nem sempre seus diretores logram encontrar no fundo dos assuntos o magma audiovisual que justifique a escolha da forma filme. Esses trabalhos podem, então, servir para provocar ou ilustrar debates, fornecer documentação potente e argumentos fortes, mas, mostrados para um público comum, despertam pouco interesse.

Quando um filme consegue fazer a alquimia tema-forma, aí junta-se informação e fruição num êxito mais amplo. É o caso de CAMINHO DO MAR, documentário a que assisti semana passada numa sessão especial para convidados. O diretor e roteirista Bebeto Abrantes e a produtora Juliana de Carvalho (Bang Filmes) compuseram com desvelo um dossiê sobre o Rio Paraíba do Sul.

Usei o verbo compor porque o filme se estrutura como uma suíte, sutilmente dividida em movimentos que vão do allegro na nascente do rio – os olhos d’água na Serra da Bocaina, em São Paulo – ao adágio lamentoso na embocadura em Atafona, Rio de Janeiro. Entre um extremo e outro, através de mais de 1 mil quilômetros, a suíte vai ganhando tonalidades cada vez mais sombrias à medida que descreve a morte progressiva do curso d’água. O assoreamento, a poluição hídrica, o aprisionamento por usinas hidrelétricas, a perda de piscosidade e dezenas de desastres ambientais estão fazendo com que o Paraíba do Sul perca força, volume e vitalidade.

Os malefícios dessa conjuntura ameaçam a sobrevivência do próprio estado do Rio de Janeiro, cujo abastecimento de água depende em 90% daquele rio. A situação já ficou difícil para os pescadores artesanais, que recheiam boa parte do filme com suas falas bem temperadas. CAMINHO DO MAR abre olhos e ouvidos para as gentes que vivem do rio: o extrator de areia apaixonado pelo seu manancial subaquático; o construtor de barcos que aprendeu tudo só de observar “e sem fazer perguntas”; o fundidor de gesso que fornece imagens para o culto de Nossa Senhora Aparecida, fruto do “milagre das águas”.

Bebeto Abrantes é um pesquisador atento às ressonâncias de tudo com que trabalha. Vimos isso com relação aos protagonistas de 3 Antonios e um Jobim, a   João Cabral de Melo Neto em Recife/Sevilha e à música popular em As Batidas do Samba. Em sua viagem exploratória ao Paraíba do Sul ele coletou ecos da época áurea do café e da vida dos escravos africanos, que com frequência fugiam pelo rio. Na atualidade, destaca o Projeto Piabanha, que busca preservar algumas espécies de peixe em risco de extinção. E sobretudo denuncia pelas imagens a grande enfermidade ambiental que atinge o rio.

As filmagens com drone raramente foram tão bem usadas como instrumento de evidência documental. Em Volta Redonda, uma tomada antológica se ergue de um pequeno canal de desague para revelar a paisagem industrial apocalíptica de onde procede a água poluída jogada no rio. A fotografia de Andrès Boero Madrid tanto revela os trechos de beleza pouco conhecida do Paraíba do Sul quanto estampa com clareza a parafernália que o contamina e asfixia. Na captação de som (Pedro Saldanha), a riqueza acústica do rio é restituída com esmero. Coube à edição de Marcelo Rodrigues e ao desenho sonoro de Waldir Xavier criar módulos de ritmo adequados a cada movimento da suíte, sujeitando o assunto à estrutura musical que preside todo o filme. E a trilha sonora original de João Viana banha o rio de acordes fortes ou dolorosamente graves, que engajam a plateia não pela contemplação, mas pela dramaticidade.

CAMINHO DO MAR vê o rio de dentro e mostra para a sociedade os riscos em que vivem as águas, a fauna e os seres humanos de uma vasta região. Tem uma missão de esclarecimento a cumprir junto a autoridades, ambientalistas e empresários. Descortina de forma cabal a importância histórica, econômica e humana do Paraíba do Sul, habitualmente relegado a uma relativo anonimato. Graças ao talento de Bebeto, Juliana e sua equipe, o documentário oferece ainda uma vistosa atração cinematográfica para qualquer pessoa.

2 comentários sobre “Suíte para um rio agonizante

  1. adorei ver o trailer, deu a maior vontade de ver o filme, ainda mais com os comentários de um espacialçista de documentários.
    abraço

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