Os “amigos” americanos

Depois de Soldados do Araguaia, uma nova faceta da história subterrânea brasileira dos anos 1960 e 70 ressurge no documentário EM NOME DA AMÉRICA. O cineasta, pesquisador e professor Fernando Weller penetra no âmago de uma contradição intrigante: como um grupo de jovens americanos, muitos deles idealistas, se alistaram no voluntariado civil do Peace Corps e vieram para a América Latina numa época em que o imperialismo combatia a “ameaça comunista” representada pela revolução cubana. Como conciliavam as boas intenções humanitárias com um projeto ideológico camuflado que apoiou o golpe de 1964 no Brasil?

Movido inicialmente por uma curiosidade prosaica em torno do boato de que Steven Spielberg teria estado em Pernambuco fugindo da guerra do Vietnã – razão pela qual muitos se alistaram no Peace Corps –, Weller acabou encontrando o fio de uma bela meada. Contactou mais de 100 pessoas que participaram do programa no Brasil e localizou materiais de arquivo preciosos, alguns dos quais inéditos publicamente. O resultado é uma imersão na rede de interesses americanos no Nordeste brasileiro, que vem complementar a pesquisa levada a cabo por Camilo Tavares em O Dia que Durou 21 Anos.

O reencontro com ex-Voluntários da Paz, no Brasil e nos EUA, traz à tona memórias comoventes e informações perturbadoras. A interação dos jovens ianques com os brasileiros do Nordeste era marcada pela ambiguidade entre desconfiança e afeto. Instruídos a não fazer política, eles no entanto eram vistos ou como anjos da guarda, ou como potenciais espiões da CIA. Alguns criaram laços de amizade e de interesse cultural que até hoje reverberam. Todos os entrevistados ainda falam ou pelo menos arranham o português.

Alguns veteranos confirmam as pesquisas de Weller, embasadas nos livros Em Nome da América – Os Corpos da Paz no Brasil, de Cecília Azevedo, e no especialmente revelador A Revolução que Nunca Houve, de Joseph A. Page. Todo um projeto de doutrinação com vistas a um sindicalismo “livre” (leia-se pelego) e estímulo à formação de cooperativas rurais no modelo americano foi aplicado no Brasil para coibir a influência das Ligas Camponesas de Francisco Julião, o inimigo nº 1. Não era apenas uma disputa simbólica por corações e mentes. Enquanto a moçada ajudava os camponeses na agricultura e na saúde, por sob os panos a CIA mandava dinheiro para seus projetos através de empresários “laranjas” e atuava em parceria com a Igreja Católica. No clímax do filme, o diretor se defronta com um notório espião da CIA, sósia de Clint Eastwood, que atuou por aqui à margem do Peace Corps. Segundo ele, o Brasil é “desorganizado demais” e o povo, pouco instruído para fazer uma revolução comunista. Bingo!

Weller se move com visível cuidado para não reforçar estereótipos sobre o papel dos americanos, nem fazer acusações desprovidas de fundamento. Mas o quadro fica bastante claro para quem consegue ler nas entrelinhas do que é dito e do que é dissimulado.

Evidências não faltam quanto à imagem do Brasil colhida pelos voluntários nos filmes do Peace Corps. Trata-se de um tesouro praticamente desconhecido sobre o agreste pernambucano nos anos 1960. Um “coronel” de terras demonstra seu poder detonando um revólver a esmo e outro explica que não paga salários decentes a seus trabalhadores para que eles não se acomodem e aprendam a poupar. As figuras dos louros e louras americanos transitando no sertão causam um contraste fascinante, que diz muito a respeito do subdesenvolvimento brasileiro àquela época. Já os trechos do filme Foreigners, realizado pelo Peace Corps da Colômbia, expõem mais cruamente a incongruência de uma ocupação política disfarçada de filantropia.

“Tudo depende de como se vê as coisas”, dizia um slogan do Peace Corps. EM NOME DA AMÉRICA nos possibilita ver diversos lados e chegar a nossas próprias conclusões. Para um documentário sobre um paradoxo político, isso é um elogio.

Vejam um dos filmes citados por Weller, de propaganda anti-comunista americana: Brazil, the Troubled Land

Leiam uma entrevista com Fernando Weller

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