Marcos Medeiros presente

Imagine um cruzamento do Menino do Rio com Glauber Rocha e Daniel Cohn-Bendit, e você estará perto de saber como era Marcos Medeiros. Pouca gente fora do círculo da esquerda carioca dos anos 1960 conhece essa figura solar, irreverente e corajosa, talvez o líder mais inflamado a sair do movimento estudantil da época. Essa dívida começa a ser saldada com o lançamento do documentário MARCOS MEDEIROS, CODINOME VAMPIRO, de Vicente Duque Estrada.

A ocasião não poderia ser mais adequada, quando a memória de 1968 está sendo revisitada meio século depois. Marcos Medeiros estava no olho do furacão, como situa o filme logo no início. A revolução cubana, o governo Jango, o golpe de 64, o advento de uma nova juventude rebelde e a contracultura formam o contexto de onde saiu aquele louro tão boa pinta quanto enragé. Enquanto Vladimir Palmeira é um dos que relatam sua ousadia ativista, Maria Lúcia Dahl destaca o charme másculo a que ela, entre tantas, não resistiu.

O ex-estudante de Sociologia, agitador estudantil e dirigente do PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário foi preso cinco vezes antes de partir para o exílio em 1970. Reinventou-se como cineasta em Cuba, ao realizar com Glauber Rocha o filme-ensaio História do Brazyl. Ao retornar com a anistia, nem ele, nem o Brasil eram mais os mesmos. Marcos teve dificuldade em reencontrar-se e levar adiante seus projetos de cinema. A relação com Brizola lhe permitiu algum desafogo profissional na Fundação Rio (depois Rioarte). O filme de Vicente traz excertos de seus vídeos, alguns em VHS e desabusadamente glauberianos, além de trechos de seus escritos autobiográficos narrados pelo ator e dublador Ricardo Schnetzer com voz zombeteira semelhante à sua.

Como vários personagens daquele momento histórico-cultural, Marcos morreu cedo, aos 51 anos, torpedeado por excessos de álcool, drogas, frustração e loucura. Em sua curta vida, simbolizou um certo radicalismo chique que desapareceu da cena brasileira atual. Por isso é inspirador descobrir sua história através desse filme. Alternando entre cabeças falantes e materiais de arquivo, Vicente Duque Estrada e o produtor Cavi Borges fizeram o filme possível nas condições do cinema independente.

Nem tudo se justifica claramente, como é o caso das cenas do clássico etnográfico Rituais e Festas Bororo em meio a uma reflexão sobre o estado da cultura na segunda metade do século XX. Em alguns momentos, senti falta de saber/lembrar quem estava falando coisas definidoras em primeira pessoa fora de quadro. Essa costuma ser uma inconveniência de filmes que fragmentam demais os depoimentos em off para dar conta de um relato coral. Nada disso, porém, reduz a importância desse documentário para completar o mosaico evocativo de um período em que a política e a vida afetiva se insurgiam contra a opressão e a caretice. Belos tempos, Marcos Medeiros…

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